CIêNCIA

China prepara-se para tomar a dianteira no Polo Sul da Lua

A Chang’e 7 pode ser a primeira a aterrar perto de Shackleton. A dúvida já não é técnica, é política: o que faz Pequim com esse troféu geopolítico.

China prepara-se para tomar a dianteira no Polo Sul da Lua

Se tudo correr como planeado, um foguetão Long March 5 sai já estes dias da costa chinesa com a Chang’e 7 a bordo. É mais um lançamento para o calendário espacial global, mas este vem com um alvo muito específico: a vizinhança da cratera Shackleton, praticamente no Polo Sul da Lua. Traduzido: vai directo à zona mais valiosa do satélite natural da Terra.

A missão é tudo menos modesta. A Chang’e 7 leva um orbitador com câmaras de alta resolução e instrumentos científicos, um módulo de alunagem, um rover e ainda uma pequena sonda saltitante. O módulo é várias vezes mais massivo do que as sondas comerciais apoiadas pela NASA que têm tentado aterrar na Lua nos últimos tempos. A China não está a brincar a landers experimentais, está a construir um programa lunar com continuidade e ambição.

O ponto crítico é o sítio. Shackleton e arredores combinam duas coisas raras: cristas com quase luz solar permanente, óptimas para painéis solares, e regiões em sombra eterna, os tais “cold traps”, onde se acredita que água gelada e outros voláteis se acumularam durante milhares de milhões de anos. Toda a conversa sobre bases lunares, refinação de combustível in situ e presença permanente condensa-se em poucos quilómetros quadrados neste pedaço de terreno. Quem chegar primeiro ganha mais do que fotos bonitas.

Desde 1959, com a Luna 1 soviética, passaram pela Lua mais de cem tentativas de missões, sucessos e falhanços incluídos. Nenhuma aterrou no Polo Sul. Se a Chang’e 7 conseguir o feito, as primeiras imagens em alta definição de um rover chinês a explorar Shackleton vão ser muito mais do que material para wallpaper. Vão ser munição propagandística para Pequim mostrar que conseguiu ultrapassar Washington num símbolo clássico de poder tecnológico. Para uma opinião pública americana que ainda vive de Apollo 11, isto vai soar a despertar brusco.

Em Washington essa ansiedade já está em papel. O Congresso deu este ano carta branca ao novo administrador da NASA para rasgar partes do plano antigo, incluindo o Gateway em órbita lunar, e concentrar recursos num regresso mais directo e sólido à superfície com o programa Artemis. Depois de anos em que a agência parecia mais preocupada com empregos em certos estados do que com resultados concretos, é uma mudança rara. Mas enquanto os Estados Unidos reorganizam a casa, a China voa em frente. A mesma lógica estratégica que está a levar empresas ocidentais a rever a dependência industrial de Pequim, como se viu com a saída faseada da produção dos Pixel da China, também se está a jogar no espaço, só que em câmara rápida.

O ponto mais sensível ainda está por esclarecer: o que fará a China se tiver um rover a percorrer aquela “faixa costeira” de gelo lunar antes de toda a gente. O Tratado do Espaço Exterior proíbe reivindicações de soberania clássicas, mas deixa brechas suficientes para quem quiser experimentar zonas de exclusão de facto em nome da segurança ou da “investigação contínua”. Se Pequim usar o sucesso da Chang’e 7 para testar até onde pode esticar o conceito de território na Lua, o debate deixa de ser entre NASA e China e passa a ser entre quem acredita em espaço como bem comum e quem o vê como mais um tabuleiro para reforçar fronteiras, mesmo a 380 mil quilómetros de distância.

Fonte: Ars Technica

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