IA

China acelera nos agentes de IA enquanto a Europa desenha fábricas

Pequim já conta com agentes de IA para dominar o mercado de computação até 2029. Bruxelas responde com sete gigafábricas ainda em concurso e quase sem dinheiro garantido.

China acelera nos agentes de IA enquanto a Europa desenha fábricas

Enquanto em Bruxelas ainda se discute onde levantar paredes, Pequim já está a contar quantos agentes de IA vão ocupar os servidores. Um relatório do China Telecom Research Institute, retransmitido pela televisão estatal chinesa, diz que a indústria de IA do país está a sair da corrida aos grandes modelos para se focar em agentes e em quem controla a fase de utilização dos modelos, a inferência.

O número-chave é simples e incómodo para a Europa: até 2029, a inferência deverá representar 80% do mercado chinês de capacidade de computação, ultrapassando o treino de modelos. Treinar constrói um modelo uma vez. Inferir é a conta que aparece todos os dias, cada vez que alguém usa esse modelo. Passa de investimento de capital a custo operacional, e é aí que as margens se instalam.

Segundo o relatório, a aposta em agentes deverá quase multiplicar por dez a procura anual de computação na China nos próximos dois a três anos. Não é um detalhe técnico, é uma mudança de camada: em vez de competir apenas em modelos gigantes, as empresas chinesas querem vender agentes que orquestram tarefas, chamam serviços externos e vivem embebidos em aplicações. É a mesma lógica que vemos na nova Agents API da OpenAI, mas aqui com o selo explícito do Estado chinês.

O dinheiro acompanha a ambição. As tecnológicas chinesas deverão gastar perto de 600 mil milhões de yuan este ano, cerca de 89 mil milhões de dólares, em IA. Mais de um décimo de todo o investimento do país. Para comparação pouco lisonjeira, esse valor é equivalente ao orçamento total de várias políticas comunitárias somadas, e é gasto num ano num único sector. É também o intervalo temporal em que a União Europeia está a tentar montar a sua resposta em infra-estrutura.

A Comissão Europeia abriu em julho o concurso para até sete gigafábricas de computação para IA, um programa de 30 mil milhões de euros que junta cerca de 10 mil milhões públicos e 20 mil milhões desejados de privados. Desses 30 mil milhões, só cerca de 1 mil milhão está realmente comprometido. As empresas chinesas vão gastar essa quantia em IA a cada cinco dias ao longo de 2026. As candidaturas fecham a 12 de novembro, as adjudicações só em 2027, a construção arranca nesse ano e as máquinas deviam estar a funcionar a meio de 2028. No papel, um ano antes do tal ponto de viragem da China para a inferência. Na prática, apenas se nada derrapar.

Já derrapou. O lançamento do concurso passou de maio para julho, os critérios de avaliação atrasaram, e o entusiasmo caiu de cerca de 70 interessados para algo como dez potenciais concorrentes. Pior, grande parte da componente pública depende de um orçamento europeu para 2028-2035 que os Estados-membros ainda nem acordaram. Enquanto isso, a economia da IA move-se para onde está a margem: optimizar e operar modelos, não apenas construí-los. A China publica relatórios sobre como correr modelos dentro de casa. A Europa ainda discute onde levantar os edifícios, quantos megawatts cabem em cada um e quem paga a factura. Para quem está em Portugal e olha para este xadrez, a conclusão é desconfortável: andamos a discutir data centers e consumo energético enquanto outro bloco decide quem controla os agentes que vão viver dentro de tudo o que usamos.

Fonte: The Next Web

Comentários · 0