A Casa Branca norte-americana lançou o Arcade.gov, um site oficial de minijogos em browser que transforma em mecânicas arcade as políticas de imigração e segurança de fronteiras associadas a Donald Trump. Não é sátira da oposição, é comunicação do próprio governo, com slogans como “Build the wall. Deport. Fill a Trump Account” a saltar do Twitter para o ecrã de jogo.
Como destacou o IGN, os jogos piscam o olho a clássicos acessíveis como Flappy Bird e ao velho Snake. Em Rio Run, um clone de Snake, o jogador guia uma fila de prisioneiros com fatos cor de laranja, acumulando um contador de “deported” no fim de cada corrida. O gesto básico que qualquer pessoa associa a um jogo de telemóvel de fila de pontos transforma‑se, aqui, na contabilidade lúdica de deportações. Quem ainda achava que gamificação era só para fitness e Duolingo estava a pensar demasiado pequeno.
Outro minijogo, Build the Wall: Zombie Border Siege, pega na lógica de Tetris para empilhar tijolos contra “aliens” que avançam na “Southern Border”. Em vez de linhas perfeitas, o objectivo é erguer um muro eficaz. Depois há Trump Savings Tycoon, com pano de fundo em Washington D.C., onde apanhamos memecoins e notas a cair, tudo para “encher as Trump Accounts” das crianças. Politização da mesada via mecânica de apanhar objectos, como tantos jogos mobile de feira, mas com branding presidencial.
Há ainda Supply Line, um jogo de tapete rolante em modo cantina escolar, em que legumes passam e alimentos marcados como “offensive foodstuff” são empurrados para fora. É o tipo de interface simples que qualquer campanha usaria numa app educativa, mas aqui serve para reforçar uma visão moralista da alimentação, empacotada em estética low-poly simpática. Em vídeos divulgados nas redes, a própria entrada do site imita arranques de consolas como PS2 e Xbox 360, e surge um logótipo “Maga” a copiar o estilo da velha assinatura sonora da Sega. Memória afectiva gamer reciclada como embalagem de slogan político.
Abigail Jackson, porta-voz da administração, já tinha defendido esta estratégia ao The New York Times: através de “publicações envolventes e memes que são banger”, o governo diz estar a comunicar uma agenda “extremamente popular”. Traduzindo, a comunicação oficial assume linguagem de shitpost de rede social e de cultura de videojogos para chegar a públicos mais novos, e não tem pudor em colar‑se a propriedades culturais que não controla. Nintendo e The Pokémon Company já contestaram a apropriação de imagens e referências nas campanhas anteriores, e o caso não é isolado.
No início do ano, o actor Steve Downes, voz de Master Chief em Halo, exigiu que a administração removesse a sua voz de um vídeo de propaganda sobre a guerra no Irão, chamando‑lhe “war porn” juvenil. Agora, com um portal oficial de minijogos a normalizar deportações e muros como se fossem power‑ups, a estratégia sobe mais um degrau. Para quem joga na Europa, isto não é uma curiosidade distante, é um manual em directo de como governos percebem, e exploram, a literacia lúdica de uma geração inteira. E a indústria, que há décadas pede para ser levada a sério como cultura, vai ter de decidir se também quer ser levada a sério como fronteira política.
Fonte: Eurogamer
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