CIêNCIA

Carros elétricos ultrapassam gasolina e gasóleo na Alemanha pela primeira vez

Em junho, os elétricos foram o tipo de carro mais vendido no maior mercado automóvel europeu. É um marco simbólico forte, mas a frota real continua presa ao combustível fóssil.

Carros elétricos ultrapassam gasolina e gasóleo na Alemanha pela primeira vez

Em junho, a Alemanha registou 84.057 carros 100% elétricos. Mais do que gasolina. Mais do que gasóleo. Mais do que qualquer outro tipo de motorização. É a primeira vez que isto acontece no país que inventou o motor de combustão interna e que transformou a palavra Autobahn em mito automóvel.

Os números da autoridade federal de transportes alemã colocam os elétricos em 28,4% de quota de mercado nesse mês. Logo atrás, híbridos convencionais com 28,1% e depois gasolina com 20,5%. Diesel ficou nos 11,4% e os híbridos plug-in em 10,9%. Traduzindo: entre quem foi comprar carro novo em junho, o padrão já é mais tomada do que bomba de combustível. E não é um fenómeno de nicho, o mercado total de novos registos chegou aos 296.378 carros, mais 15,7% que no mesmo mês do ano anterior.

No detalhe, o segmento elétrico continua a ter um sotaque muito claro. O Tesla Model Y liderou com 6.023 registos, suficiente para terceiro lugar no ranking geral de todos os combustíveis. A seguir vem o Volkswagen ID.3 com 3.514 unidades e o Skoda Enyaq com 3.383, todos modelos já familiares nas estradas portuguesas. A Volkswagen continua a mandar no mercado alemão em termos globais, com 51.058 matrículas no mês, seguida de BMW e Skoda, o que mostra que a transição elétrica, para já, ainda cabe dentro das marcas de sempre.

É aqui que a notícia interessa a quem anda a ver preços de carros elétricos em Portugal, ao mesmo tempo que lê sobre promessas futuristas como o carro voador da Xpeng a fazer show na Alemanha sem poder levantar voo comercial na Europa. A diferença é que os elétricos de quatro rodas já não são ficção, são a escolha dominante na compra de carro novo no mercado mais conservador da região em matéria de engenharia automóvel. Se a terra do gasóleo de autoestrada está a virar a página, o argumento de que o elétrico é “coisa de países nórdicos” começa a soar a desculpa.

Convém, ainda assim, separar símbolo de realidade. A Alemanha tem cerca de 61 milhões de veículos registados. Só 4,1% são elétricos. Quase 60% continuam a gasolina. Ou seja, o título de junho é uma fotografia do momento em que o consumidor que está a trocar de carro começa a preferir baterias, mas a frota real vai demorar muitos anos a refletir esta mudança. E isto num contexto em que os custos de baterias e componentes subiram, o que trava descidas de preço que se davam por garantidas há dois ou três anos.

Para Portugal, onde os incentivos fiscais e os descontos diretos ao comprador vão e vêm ao sabor do Orçamento de Estado, o recado é direto. Quando o maior mercado europeu muda a agulha, a indústria alinha a oferta, as plataformas elétricas amadurecem e o mercado de usados começa, inevitavelmente, a encher-se de EVs vindos de fora. Quem legisla e quem planeia rede de carregamento pode continuar a tratar o elétrico como exceção, mas a estatística alemã já o colocou na categoria errada.

Fonte: The Next Web

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