Meio milhão de sites legítimos abaixo para tentar travar streams ilegais de futebol. Este é o rasto de destruição colateral dos bloqueios de IP da LALIGA em Espanha, segundo um relatório recente da OONI, o Open Observatory of Network Interference (um observatório independente de censura na internet). A motivação é simples: cortar transmissões piratas nos dias de jogo. O método é tudo menos simples e, sobretudo, tudo menos cuidadoso.
A LALIGA consegue decisões em tribunal que obrigam os operadores a bloquear endereços IP associados a streams piratas. O problema é que a web de 2026 não vive em servidores dedicados por site, vive em infraestrutura partilhada. Vários serviços de alojamento, de Cloudflare a Amazon, colocam milhares de domínios atrás dos mesmos poucos endereços IP. Bloqueia-se um IP para atingir meia dúzia de sites piratas, caem com eles dezenas ou centenas de milhares de serviços que nada têm a ver com futebol ou pirataria.
Os dados da OONI são claros e pouco simpáticos. Entre janeiro e junho, mais de 500.000 domínios legítimos foram afetados em Espanha. Em dias de jogo, bastava bloquear entre 4 e 20 endereços IP para tirar do mapa digital mais de 400.000 domínios não relacionados. A interrupção durava o tempo da partida, o que liga diretamente os bloqueios às transmissões. Ao longo de seis meses, os operadores tocaram em 7.441 endereços IP de 36 fornecedores de alojamento, incluindo pesos pesados como Cloudflare, Amazon, Akamai, Meta e Microsoft.
Cloudflare levou o maior embate. Mais de 90% dos domínios afetados, 501.305 no total, estavam na sua rede, espalhados por apenas 2.218 IPs bloqueados. Um único IP da Squarespace derrubou sozinho 18.592 sites. No meio dos danos colaterais estavam organizações como a Amnesty International, a Greenpeace Argentina, a Cool Earth ou a Berkeley Earth. LALIGA não tinha qualquer litígio com elas. Foram apenas apanhadas porque partilhavam vizinhança de IP com alguém que transmitia futebol sem licença.
Como se o apagão não chegasse, houve um extra preocupante. Em ligações através do operador Digi Mobil, a OONI detetou interceção TLS em modo man-in-the-middle: em vez do certificado legítimo, a rede injetava um certificado falso. Isto abre a porta a quem controla a infraestrutura para espiar tráfego ou manipulá-lo. Segundo o relatório, a técnica afetou 7.334 endereços IP e 10.759 domínios, muitos também em redes da Amazon e da Cloudflare. Uma medida apresentada como defesa da propriedade intelectual transforma-se assim num risco direto para a privacidade e segurança dos utilizadores.
Bloqueios de sites piratas por ordem judicial não são novidade na Europa. Espanha já tinha fama de ter um dos regimes mais agressivos. O que mudou foi a canalização técnica da internet: com tanta infraestrutura partilhada, bloquear IPs é usar caçadeira em vez de bisturi. E isto interessa a quem está em Portugal tanto como a quem está em Madrid. Os mesmos fornecedores de infraestrutura servem sites portugueses e espanhóis, as mesmas decisões legais extremadas servem de modelo noutros países. Cada vez que se normaliza uma abordagem grosseira destas, abre-se espaço para que operadores e titulares de direitos testem o mesmo modelo noutros mercados. O futebol sai protegido, a internet é que fica a jogar em desvantagem.
Fonte: The Next Web
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