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Ainda há espaço para boas apps na era da IA, e estas provam isso

Entre hype de agentes de IA e “vibe-coding”, a App Store continua bem viva. Três apps discretas mostram porque é que o software ainda importa mais do que o buzz.

Ainda há espaço para boas apps na era da IA, e estas provam isso

Em plena febre de agentes de IA e promessas de interfaces mágicas, as velhas apps continuam onde sempre estiveram: no ecrã inicial. A narrativa de que vamos abandonar ícones e listas de aplicações em troca de um único agente omnisciente é conveniente para quem quer vender a próxima grande plataforma. Mas, se fores ver o que realmente está a ser lançado, a história é outra.

Relatórios recentes apontam para um aumento global de 60% nos novos lançamentos em 2026 nas lojas da Apple e da Google, com o iOS a liderar com mais 80% de apps novas ano após ano. Parte disto vem de ferramentas de programação assistidas por IA que encurtam ciclos de desenvolvimento e abrem a porta a gente que nunca escreveria uma linha de código sozinha. Isso também traz lixo, é verdade, sobretudo o que alguns chamam de “vibe-coded apps”: ideias meio soltas, coladas por prompts. Mas por baixo do ruído continuam a aparecer projetos com ideia clara, utilidade concreta e atenção ao detalhe.

Um bom exemplo é o Albo, da The Feel Good Project, que tenta resolver um problema moderno muito simples: tudo o que marcamos como “guardar para ver mais tarde” desaparece num buraco negro. Em vez disso, partilhas para o Albo o link do TikTok, Reels, vídeo de YouTube ou página qualquer. A app puxa os detalhes, categoriza, guarda e ainda mantém uma cópia útil mesmo que o criador apague o original. Funciona com quase tudo o que interessa hoje, de Pinterest a X, LinkedIn, Threads, Reddit ou Facebook, e aceita também capturas de ecrã. Ideias para viagens, receitas, livros, treinos, sítios para ir. Fica tudo num só sítio, partilhável com amigos. O lado menos simpático: o empurrão agressivo para a subscrição logo no onboarding. A funcionalidade de base é gratuita, mas a pressão não engana ninguém.

Noutro registo, o Coop mostra como uma app pode aproximar o digital da terra e do pão. Em vez de mais um marketplace globalizado, é um mercado de bairro no telemóvel, focado em produtores e artesãos locais. A lógica é simples: descobres quem vende o quê à tua volta, segues favoritos, vês a distância, compras via integração com Stripe, combinas levantamento. Desde ovos frescos a pão caseiro, passando por hortícolas ou artesanato. O modelo faria sentido em qualquer cidade portuguesa com pequenos produtores que vivem à margem das grandes cadeias. Aqui, a IA não é o cartaz. O que conta é a infra-estrutura mínima para que a vizinhança funcione como rede económica.

Depois há a PI.FYI, saída de uma newsletter de culto chamada Perfectly Imperfect, que tenta ressuscitar um “velho internet” feito de recomendações entre pessoas em vez de feeds mandados por algoritmo. A app é caótica, colorida e deliberadamente anti-polida. Serve para registares aquilo de que gostas, partilhares gostos com outros e navegar por categorias e “cenas” como música, literatura, retro ou pura excentricidade. É menos um substituto do Instagram e mais um clube de recomendações cruzadas. Num contexto em que até a pesquisa está a ser empurrada para agentes conversacionais, esta insistência em gosto humano declarado é quase política.

Para quem anda a seguir a conversa sobre agentes de IA que prometem substituir apps, estes exemplos são um bom travão. Todos usam tecnologia recente, alguns certamente encaixam IA “por baixo do capot”, mas nenhum vende essa camada como produto principal. Vendem utilidade, comunidade, curadoria. É o oposto da loja cheia de clones gerados a partir do mesmo prompt. Enquanto houver problemas concretos para resolver, mercados locais por ligar e gostos para mapear entre pessoas reais, vai continuar a haver espaço para boas apps. Os agentes que se desenvencilhem para lhes chegar aos calcanhares.

Fonte: TechCrunch

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