A Amazon quer pôr uma IA a acompanhar cada conversa que tens, pronta a lembrar-te de detalhes que esqueces e a sugerir-te o que comprar a seguir. Segundo o The Register, a gigante do comércio eletrónico apresentou hoje dois novos dispositivos da Bee, startup de wearables que comprou no ano passado por cerca de 300 milhões de dólares.
Os aparelhos chamam-se Bee Frontier e Bee Eclipse. O primeiro é uma pulseira no registo de relógio ou fitness tracker, o segundo é um rectângulo fino do tamanho de um cartão de crédito que se agarra magneticamente à traseira do telemóvel. Ambos fazem a mesma coisa: escutam conversas, extraem contexto, geram resumos, listas de tarefas e lembretes. A parte menos subtil é o extra que a Amazon não esconde: recomendações de compras personalizadas com base no que andaste a dizer em voz alta.
Cada Bee tem um único botão para ligar e desligar, mais um indicador luminoso quando o microfone está ativo e a IA está a resumir a conversa. É o tipo de detalhe que a Amazon gosta de chamar transparência, mas que na prática se resume a confiar que aquela luz é a fronteira entre privacidade e vigilância. As conversas vão parar a uma app Bee no iPhone ou Android, ligada por Bluetooth, e também a uma nova app desktop, onde se podem consultar resumos por temas, rever memórias dos últimos dias ou usar templates para coisas como aulas e reuniões.
Os dispositivos procuram padrões no que dizes, identificam temas que se repetem e sugerem objetivos e ações personalizados. Aqui o encanto da produtividade cruza-se com um lado mais sombrio: isto implica uma IA pensada para te conhecer a fundo, gostos incluídos. Para completar o círculo, a Bee passa a ligar-se ao Alexa+ e à própria Amazon.com. Ou seja, podes pedir à Alexa um resumo da última reunião, mas também receber sugestões de compras diretamente alinhadas com aquilo que disseste ao teu wearable. A fronteira entre assistente pessoal e vendedor insistente fica perigosamente desfocada.
Para tentar acalmar receios, a Amazon garante que o áudio é processado em tempo real, convertido em “insights” e não armazenado, e que as transcrições ficam encriptadas e acessíveis só ao utilizador. Tecnicamente, isto é melhor do que despejar gravações em bruto na cloud. Politicamente, continua a ser pedir a quem usa que acredite que uma empresa cujo modelo de negócio é conhecer o cliente ao detalhe vai conter-se no apetite pelos dados que um microfone permanente produz. Não é coincidência que surjam gadgets destes no mesmo momento em que multiplicam os anéis, pins e clips com IA sempre ligada, como o anel-agente IA que já analisámos em detalhe na Pixel.
Na ficha técnica, a Bee Frontier promete resistência IP67, até sete dias de bateria e carregamento por USB-C. A Bee Eclipse também carrega por USB-C e aguenta mais de 21 dias por carga. São números competitivos no mundo dos wearables, mas o hardware aqui é quase secundário. O que interessa é o pacto que se assina: em troca de nunca mais te esqueceres de onde é o jantar, dás à Amazon uma linha direta, contínua e riquíssima para dentro da tua vida quotidiana. Chamar a isto “memória melhorada” é simpático. “Microfone comercial ambulante” descreve melhor o negócio.
Fonte: The Register
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