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Investigadores criam worm de WeChat com IA que se espalha por chamadas

Uma empresa de segurança usou modelos de IA para encontrar uma falha nas chamadas do WeChat e construir um worm zero-click. Tencent diz que já resolveu, mas não mostra o trabalho de casa.

Investigadores criam worm de WeChat com IA que se espalha por chamadas

Um grupo de investigadores da Calif, empresa de segurança sediada em Palo Alto, usou modelos de IA para encontrar uma falha nas chamadas de voz do WeChat e construir um worm capaz de se espalhar sem que a vítima atenda o telefone. A Tencent, dona do WeChat, confirmou o problema, garante que já o corrigiu e que não tem sinais de exploração real. Até agora, zero boletins públicos, zero detalhe técnico sobre o patch. É o clássico “confia em nós”.

A Calif baptizou a prova de conceito como WeWorm e apresentou-a como o primeiro worm zero-click a propagar-se via chamadas de WeChat em iOS e Android. O ataque, descrito em detalhe geral mas sem código reutilizável, foi inicialmente revelado pelo New York Times e complementado por um relatório próprio da empresa. Tal como em outros casos recentes em que a IA entra na caixa de ferramentas ofensiva, o objectivo declarado é defensivo. Mas a linha entre investigação responsável e manual de ataque tem ficado cada vez mais fina, como se viu quando novas técnicas de raciocínio da OpenAI levantaram alarmes de segurança.

O vector é simples e por isso preocupante. O atacante tem de estar na lista de amigos da vítima, faz uma chamada e a vítima nem precisa de atender. Se atender, não ouve nada e o exploit continua a funcionar. Recusar a chamada bloqueia aquela tentativa, mas o atacante pode insistir, de preferência quando o alvo está a dormir. Uma chamada bem sucedida dá controlo total da conta: ler e enviar mensagens, fazer chamadas, agir como se fosse o dono. A Calif aponta o dedo a um bug de corrupção de memória na pilha de chamadas via internet do WeChat, agravado por privilégios excessivos dados aos contactos de confiança.

É aqui que a dimensão de WeChat pesa. Juntando WeChat e Weixin, a versão para a China continental, falamos de mais de 1,4 mil milhões de utilizadores mensais. Para muita gente na Ásia, a conta é metade da vida digital: mensagens, pagamentos, autenticação em serviços, mini-programas que substituem apps completas. Um worm que se espalha de contacto em contacto por chamadas é mais do que um susto académico. Mesmo que o ataque nunca tenha sido visto fora do laboratório, a superfície de risco é óbvia.

Segundo a Calif, a equipa levou cerca de dois dias, com ajuda de IA, a encontrar o bug e a escrever o primeiro exploit. Demorou mais uma semana a transformar isso num worm que se auto-propaga entre contactos. A empresa diz ter usado uma mistura de modelos abertos e modelos comerciais de topo para acelerar a análise de código e a construção da cadeia de ataque. Não é caso único. A mesma lógica de “IA como multiplicador de força” já está a aparecer em produtos de grandes empresas, com resultados duvidosos para a segurança, como se vê quando a Microsoft injeta IA no Windows e soma falhas.

Para utilizadores em Portugal, onde o WeChat é quase irrelevante no dia-a-dia, isto pode soar distante. Não devia. O que a Calif mostrou é que modelos de IA comerciais já conseguem encurtar brutalmente o tempo entre encontrar uma falha complexa e ter um worm funcional a explorá-la. Hoje é o WeChat, amanhã pode ser o WhatsApp, o iMessage, o Signal ou uma app de banca europeia. Se a IA barateia o custo de escrever exploits, a única resposta séria é menos opacidade e mais engenharia defensiva a sério. O problema é que, por agora, muitos gigantes preferem o comunicado vago ao boletim técnico. E isso, ao contrário do worm, já é prática corrente.

Fonte: The Next Web

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