Enquanto meio mercado anda a discutir se o boom da IA é bolha, a Hon Hai, mais conhecida por Foxconn, limita-se a passar fatura. As receitas de agosto subiram 52% para NT$921,8 mil milhões, cerca de 29,1 mil milhões de dólares, bem acima do que os analistas esperavam para o trimestre. Julho já tinha crescido 54%. Para quem monta os servidores da Nvidia, a febre da IA não é teoria macroeconómica, é linha de produção a arder.
A empresa taiwanesa tornou-se a referência mensal para medir o pulso à infraestrutura de IA. Em julho, os servidores de IA já geravam mais receita do que todo o resto do portefólio combinado. O resto é, sobretudo, Apple. A Foxconn continua a ser o principal montador de iPhones, com margens bem mais magras, enquanto a Apple espalha risco por fabricantes como a chinesa Luxshare Precision. Resultado: o negócio “velho” de eletrónica de consumo está a diluir nos números públicos a verdadeira escala da corrida à nuvem de IA.
Os analistas da Bloomberg Intelligence, Steven Tseng e Rebecca Wang, sublinham exatamente isso. Margens brutas e rácios preço/lucro continuam abaixo dos pares focados em cloud, porque os iPhones e afins puxam a média para baixo. Ao mesmo tempo, a carteira de encomendas continua a engrossar. O mercado está dividido: uns olham para a dívida crescente e para o risco de excesso de capacidade, outros olham para a Nvidia a vender cada vez menos GPU isolado e cada vez mais o data center inteiro, com a Foxconn a encaixar a parte do ferro.
No meio deste braço de ferro entre medo e ganância, a Europa decide que não quer ficar só na plateia. Em junho, a Hon Hai fechou uma parceria de fabrico com a francesa Bull, empresa que o Estado francês comprou em abril, com um compromisso inicial acima de 120 milhões de euros. A produção será repartida entre Pardubice, na Chéquia, e Angers, em França. É pouco dinheiro comparado com os orçamentos obscenos das grandes tecnológicas norte‑americanas, mas é um sinal claro: a UE não quer depender totalmente da Ásia para pôr servidores de IA nos seus data centers.
Para Portugal, isto ainda soa distante, mas não devia. Os grandes grupos europeus que vão abastecer de capacidade de IA a banca, energia, telecomunicações ou administração pública vão, em muitos casos, passar por esta cadeia Nvidia–Foxconn–Bull. Cada nova ronda de investimento da Nvidia, seja em software como na compra da Hugging Face ou em parceiros de chips como a MediaTek, reforça esta concentração de poder industrial em poucas mãos, com a Europa a tentar colar‑se pelos lados com incentivos, parcerias e linguagem bonita sobre “soberania digital”.
No fim, a pergunta relevante não é se a IA dá retorno, é quem captura esse retorno. Os números da Hon Hai mostram que, por enquanto, quem vende as pás e picaretas da corrida ao ouro continua a faturar sem grandes crises existenciais. A Europa, entre o regulador duro e a ambição fabril, arrisca-se a ficar na posição confortável, mas pouco rentável, de cliente premium com aspirações industriais moderadas. Quem quer perceber para onde vai o dinheiro da IA nos próximos anos tem mais a aprender com as contas mensais da Foxconn do que com os manifestos sobre ética algorítmica em Bruxelas.
Fonte: The Next Web
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