Google Lyria 3.5 chega ao Gemini e acelera a guerra da música IA
Modelo de geração de música da Google passa a estar no Gemini para todos, com filtros afinados à luz da decisão alemã contra a Suno. A Europa começa a ditar o tom.
Modelo de geração de música da Google passa a estar no Gemini para todos, com filtros afinados à luz da decisão alemã contra a Suno. A Europa começa a ditar o tom.
A Google abriu a torneira do Lyria 3.5 para toda a gente que usa o Gemini na web e no telemóvel. O modelo de música da empresa sai da bolha de testes e entra na app principal e na API, pronto a cuspir canções completas a partir de texto ou imagens. Tudo em estéreo a 44,1kHz, o mesmo standard dos CDs, com marca de água SynthID embutida para tentar distinguir IA de áudio humano.
O Lyria 3.5 já andava escondido no Flow Music desde 29 de julho e também corre no Google AI Studio e no Google Vids, mas o passo de hoje é outro campeonato. Qualquer utilizador do Gemini pode pedir versos, refrões e pontes, e os programadores ganham mais brinquedos: podem enviar até dez imagens como referência, escrever letras com etiquetas de secção e cravar timestamps para definir em que momento é que certos instrumentos entram. Há dois sabores: Lyria 3 Clip, limitado a 30 segundos, e Lyria 3.5 “completo”, que gera faixas de alguns minutos, embora sempre numa única passagem, sem edição iterativa via prompts.
O detalhe mais político está nas traves-mestras. A Google bloqueia pedidos para vozes de artistas específicos e para geração de letras protegidas por direitos de autor. Isto é quase a fotocópia da decisão do Tribunal Regional de Munique de 31 de julho, que condenou a Suno por violação de direitos de autor. O tribunal concluiu que obras protegidas estavam “memorizadas” e reproduzíveis em versões do modelo alojadas em servidores alemães, o que as tirava da exceção de text and data mining na lei europeia. E não aceitou a tentativa de empurrar a responsabilidade para o utilizador através de prompts complexos: a culpa fica do lado do fornecedor do modelo.
A sentença foi mais longe. O tribunal alemão reclamou jurisdição sobre treino feito fora da União Europeia e ainda analisou o conceito de fair use norte-americano, concluindo que não se aplicava ao caso. Para quem está na Europa, incluindo músicos portugueses que veem os catálogos inteiros despejados em modelos sem autorização, isto começa a cheirar a enquadramento real e não a comunicados vagos de “respeitamos os criadores”. A Google, oficialmente, não diz que desenhou o Lyria 3.5 à sombra deste acórdão, mas os filtros concretos parecem menos coincidência e mais leitura atenta da jurisprudência.
Na prática, o Lyria 3.5 encaixa na estratégia mais ampla da empresa de enfiar IA em tudo, da pesquisa ao assistente, como já se viu quando empurrou respostas generativas para o topo do Google. Agora faz o mesmo à música. O problema é que os limites técnicos são bem definidos, mas os culturais não: quem faz música em Portugal vai competir com faixas geradas em segundos, licenciadas de forma opaca, numa plataforma controlada por quem também domina a distribuição e a publicidade.
Para já, a Google vende o Lyria 3.5 como ferramenta criativa com marca de água e filtros “responsáveis”. Na realidade, está a testar até onde pode ir sem repetir o susto jurídico da Suno em solo europeu. A diferença é que, desta vez, a empresa entra na sala já a ouvir o volume da regulação a subir. E não costuma ser a Google a baixar o som.
Fonte: The Next Web
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