GoPro vendida por 285 milhões de dólares e vira aposta em defesa
A marca que pôs câmaras no capacete de meio mundo é comprada pela quase desconhecida Starman Optical. A promessa: menos dívida, mais IA e defesa, sem largar o consumidor.
A marca que pôs câmaras no capacete de meio mundo é comprada pela quase desconhecida Starman Optical. A promessa: menos dívida, mais IA e defesa, sem largar o consumidor.
A GoPro encontrou finalmente um comprador. Depois de anos a definhar em bolsa e a avisar que podia ficar sem dinheiro, a pioneira das câmaras de ação vai ser adquirida por 285 milhões de dólares, cerca de 262 milhões de euros. O negócio é apresentado como uma fusão com a norte-americana Starman Optical, mas para efeitos práticos é uma compra em saldos de uma marca que já vendeu milhões de câmaras por ano.
O acordo prevê que a Starman Optical pague 1,14 dólares por ação, apague 92 milhões de dólares de dívida e deixe os atuais acionistas da GoPro com cerca de 10% da empresa combinada. A operação deve fechar até ao fim de 2026, mantendo a nova GoPro como empresa cotada. Depois de em junho ter avisado investidores de “dúvidas substanciais” sobre a sua continuidade sem novo financiamento, isto é menos uma saída estratégica brilhante e mais uma aterragem controlada.
A parte curiosa é quem está a comprar. A Starman Optical é apresentada como uma empresa de fotónica e transceivers óticos para infraestruturas de IA (inteligência artificial) e outros usos críticos de rede. Só foi constituída no estado de Delaware a 31 de agosto de 2026, o que não inspira grande confiança histórica. A operação real parece sair do guarda-chuva da Starman Holding, que controla marcas de acessórios de consumo como Incase, Incipio e Griffin, e que está a montar uma fábrica em Nova Jérsia para produção doméstica de hardware ótico.
É aqui que entra o novo discurso da GoPro: menos brinquedo de aventura, mais “empresa americana de soluções de imagem e ótica para consumo, comercial e defesa”. A administração fala em maximizar o valor da propriedade intelectual, onshoring da produção para mercados estratégicos e relevância para segurança nacional ligando câmaras, ótica e infraestrutura de IA. Em paralelo, garante que vai “apoiar totalmente” os produtos de consumo existentes e alargar o roadmap. Traduzindo: as Hero e companhia não desaparecem amanhã, mas o foco futuro não é só pôr surfistas em 4K.
Para quem compra câmaras em Portugal, o impacto imediato é limitado. A GoPro já tinha encolhido a gama, falhado a aventura dos drones e das 360 graus e recuado para um nicho de pros, sem preços particularmente amigos comparando com concorrentes da DJI ou Insta360. O negócio com a Starman pode garantir que o suporte de software e acessórios não morre de um dia para o outro, mas também abre a porta a uma marca mais preocupada com contratos governamentais norte-americanos do que com a prateleira da Worten.
Há ainda a novela de bastidores: dias antes do anúncio, o YouTuber Markiplier revelou ter acumulado 8,5% da GoPro, tornando-se o maior acionista individual. Chega tarde para mudar o rumo, serve sobretudo de sinal de como a marca continua a ter peso cultural, mesmo quando os números não acompanham. A nova GoPro vai nascer numa interseção estranha entre lifestyle e defesa. Historicamente, quando uma marca de consumo entra por aí, a parte civil raramente sai a ganhar. Mas por agora, quem tem uma GoPro na mochila só precisa de se preocupar com o cabo USB e os cartões microSD habituais.
Fonte: TechCrunch
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