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Sony e Warner processam Anthropic por alegado roubo massivo de letras

Editoras de música acusam a criadora do Claude de uma das maiores "fortunas" de dados pirateados. Em causa estão letras extraídas de sites licenciados e um padrão de abuso repetido.

Sony e Warner processam Anthropic por alegado roubo massivo de letras

A guerra entre a música e a IA generativa sobe mais um degrau: a Sony Music Publishing e a Warner Chappell avançaram com um novo processo contra a Anthropic, criadora do chatbot Claude, acusando a empresa de protagonizar “um dos maiores e mais flagrantes roubos de propriedade intelectual da história”. A linguagem é pesada, mas não é um caso isolado, é mais um tijolo num muro jurídico que começa a cercar os grandes modelos de linguagem.

O processo foi apresentado num tribunal federal do Norte da Califórnia e não se fica pela pessoa coletiva. Além da Anthropic, estão nomeados os cofundadores Dario Amodei e Benjamin Mann. A fatura teórica é absurda: 150.000 dólares por cada infração alegada, o que, multiplicado pelas obras em causa, empurra o valor potencial para muitos milhares de milhões. Isto não é um aviso educado, é uma tentativa clara de tornar o litígio demasiado caro para ser só “custo de fazer negócio”.

Para perceber o contexto convém lembrar o histórico. A Anthropic já tinha fechado em 2025 um acordo de 1,5 mil milhões de dólares para resolver o caso Bartz v. Anthropic, movido por autores de livros. Nessa ação, a empresa foi acusada de sacar milhares de e‑books de repositórios piratas como o Library Genesis (LibGen) e o Pirate Library Mirror (PiLiMi) para treinar modelos. No acordo, comprometeu‑se a destruir essas cópias. Agora, as editoras musicais citam essa história no novo processo, basicamente para pintar um padrão de comportamento: não foi um deslize, foi método.

Do ponto de vista técnico, o fulcro desta nova queixa está menos no treino em abstrato e mais na saída do modelo. As editoras alegam que a Anthropic extraiu dados de repositórios licenciados de letras como a MusixMatch e a LyricFind, e que o Claude é capaz de recitar versos de canções conhecidas palavra por palavra. Há exemplos concretos citados, de “Ain’t No Mountain High Enough” a “All I Want for Christmas Is You” ou “Eye of the Tiger”. A tese é parecida com a do processo do New York Times contra a OpenAI e a Microsoft: se um chatbot consegue devolver, de forma substantiva, conteúdo protegido que está normalmente atrás de um paywall ou de uma licença, deixa de ser discussão académica sobre fair use, passa a ser concorrência directa ao produto original.

Este processo também não aparece num vácuo. Universal Music Group, Concord e ABKCO já tinham avançado em 2023 com uma ação contra a Anthropic. A BMG juntou‑se em março de 2026. E o editor independente Round Hill Music processou recentemente a Suno e a própria Anthropic por uso indevido de música extraída ilegalmente. O padrão é nítido: a indústria está a testar, em vários tribunais e com vários réus, até onde pode esticar a interpretação do direito de autor para conter modelos que devoram tudo o que está publicamente acessível. Para uma empresa que ambiciona pôr a IA a comandar laboratórios inteiros, como explorámos quando a Anthropic falou dos seus agentes científicos em planos para automatizar laboratórios com uma só ficha, este arrasto legal permanente não é só ruído, é risco existencial.

Do lado europeu, incluindo Portugal, o processo é formalmente distante, mas o impacto será directo. Os grandes modelos que usamos via API ou em produtos finais vão incorporar, ou não, estas travagens judiciais. Se os tribunais americanos começarem a tratar a reprodução literal de letras e textos como infração clara, os modelos globais vão ter de reforçar filtros, memorizar menos, talvez treinar em dados mais “limpos” e caros. Para os músicos, isto pode abrir a porta a novos tipos de licenciamento específico para treino de IA. Para empresas que andam a brincar com chatbots internos e geração de conteúdo, o recado é simples: se a tua cadeia de fornecimento de IA assenta em dados escrapeados sem licença, a conta pode não chegar hoje, mas alguém a há-de passar.

Fonte: Gizmodo

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