CIêNCIA

Milhares de objectos interestelares poderão já viver no nosso sistema

Novo estudo sugere que o Sol capturou milhares de pequenos corpos vindos de outras estrelas, escondidos na nuvem de Oort. E a Lua traz pistas sobre atmosferas fantasma.

Milhares de objectos interestelares poderão já viver no nosso sistema

O nosso sistema solar pode ser menos “nosso” do que se pensava. Um novo estudo em Astronomy & Astrophysics defende que o Sol terá passado suficientemente perto de outras estrelas para capturar milhares de pequenos objectos interestelares, agora perdidos na nuvem de Oort. Ou seja, há lixo espacial alheio a dar voltas ao Sol há milhares de milhões de anos, e só agora estamos a montar o filme.

Nas últimas décadas vimos apenas o lado rápido destes visitantes: ʻOumuamua, o cometa 2I/Borisov e mais um candidato duvidoso. Corpos que entram a grande velocidade, passam semanas no radar, depois desaparecem para sempre. O estudo liderado por Sean Raymond, do Laboratório de Astrofísica de Bordéus, pega nesses casos confirmados e pergunta o óbvio que a observação não alcança: em encontros próximos entre estrelas, quantos destes objectos ficam efectivamente presos pela gravidade?

As simulações apontam para milhares de ISOs, objectos interestelares, capturados ao longo dos 4,6 mil milhões de anos do Sol. A maioria viverá na nuvem de Oort, uma concha esférica de corpos gelados que se estende até cerca de três anos-luz. Tão longe que, com a tecnologia actual, é ficção pensar em lá mandar uma sonda. É a mesma escala absurda que torna ambicioso um projecto como o Telescópio Roman da NASA, pensado para mapear o cosmos em grande angular: ver de perto a nuvem de Oort continua totalmente fora do menu.

O resultado mais desconfortável do estudo é este: se encontros entre estrelas são praticamente inevitáveis na galáxia, então a maior parte das estrelas deverá ter nuvens de Oort “contaminadas” com material capturado. A fronteira entre “sistema nativo” e “importado” fica esbatida. É um murro na ideia romântica de cada estrela com o seu quintal arrumado. Em vez disso, o cenário é mais de bairro caótico, onde cometas e fragmentos saltam de casa em casa sempre que duas estrelas passam demasiado perto.

Enquanto isso, mais perto de casa, outro trabalho mostra como a Lua guarda memórias de atmosferas que já não existem. Amostras recolhidas no lado oculto pela missão chinesa Chang’e 6 trouxeram para a Terra micro-esferas de vidro formadas por impactos. Dentro delas, os investigadores detectaram assinaturas químicas de plumas de vapor libertadas por esses choques, uma espécie de registo em miniatura de atmosferas transitórias que cobriram a Lua durante instantes. Não é poesia, é geoquímica: cada conta de vidro como um arquivo comprimido de um céu que durou minutos.

Os autores sugerem que o mesmo mecanismo pode acontecer noutros corpos sem ar, daqui até aos exoplanetas. Em conjunto com a história dos objectos interestelares capturados, fica a sensação de que o sistema solar é menos uma máquina estável e mais um servidor antigo cheio de remendos, ficheiros órfãos e logs de sessões passadas. Para quem anda à procura de vida noutros mundos, isto tanto complica modelos limpos como oferece novas pistas. Para o resto de nós, é um lembrete simples: a “nossa” vizinhança é partilhada há muito mais tempo do que alguma vez imaginámos.

Fonte: 404 Media

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