IA

Oura acusada de vender palpites de sono com selo de ciência

Uma ação judicial nos EUA diz que o anel Oura vende “95% de precisão” em fases de sono que, na prática, seriam palpites de IA pouco melhores que lançar uma moeda.

Oura acusada de vender palpites de sono com selo de ciência

Um anel no dedo não lê ondas cerebrais, mas a Oura andou a falar como se quase lesse. Essa é, em resumo, a acusação de uma ação coletiva proposta em São Francisco contra a empresa finlandesa que vende o smart ring mais famoso do mercado.

O alvo é um número muito concreto, repetido em páginas de produto e marketing: “95% Sleep Staging Accuracy compared to clinical sleep lab”. A queixa diz que esta precisão na classificação das fases do sono não é medição, é inferência feita por IA em cima de poucos sinais fisiológicos, com resultados que se aproximam perigosamente de um cara ou coroa.

Os autores da ação citam um estudo com 45 participantes que encontrou uma precisão global de 53,18% nas fases de sono do Oura, com sobre-estimativa do sono REM em média 31,56 minutos. O texto fala em “palpites gerados por IA” com “probabilidade de acerto de moeda ao ar”. A crítica não é só matemática, é física: um estudo de sono em laboratório usa polissonografia, mede atividade cerebral, movimento ocular e tónus muscular através de elétrodos. Um anel mede basicamente movimento, frequência cardíaca e temperatura. Confundir uma coisa com a outra é, no mínimo, ambicioso.

Oura rejeita o retrato. Diz que se mantém “ao lado da sua ciência, investigação e alegações de precisão” e aponta para vários estudos em que o anel foi comparado favoravelmente com polissonografia. Não é a primeira empresa de consumo a esticar linguagem científica em nome do marketing, mas fazê-lo com rótulo de precisão quase clínica é brincar perto da linha vermelha. Já vimos, noutros contextos, como testes frágeis ou mal desenhados podem dar uma imagem demasiado optimista de sistemas baseados em IA, como mostram bem os debates sobre segurança de IA.

O processo vem carregado: fala em fraude por deturpação, violação das leis californianas de concorrência desleal e publicidade enganosa, e pede não só indemnizações, mas também uma ordem para impor avisos corretivos bem visíveis. O calendário também pesa. A Oura confidenciou em maio um pedido de entrada em bolsa nos EUA, depois de atingir avaliação de 11 mil milhões de dólares, que a tornou a empresa europeia de hardware de saúde de consumo mais valiosa. Para investidores, a hipótese de alegações enganadoras no coração da proposta de valor é tudo menos detalhe de rodapé.

Para Portugal e resto da UE, isto não é um drama distante em tribunal americano. A mesma percentagem de 95% é usada no marketing europeu, onde a Diretiva das Práticas Comerciais Desleais proíbe afirmações enganosas sobre características principais de um produto e sobre resultados de testes. Desde junho de 2023, com a Diretiva das Ações de Representação, associações de consumidores podem avançar com ações coletivas transfronteiriças. Se os números da Oura forem publicidade criativa em vez de ciência robusta, o risco legal não fica só na Califórnia. E qualquer marca de wearables que venda “precisões clínicas” à boleia de IA devia estar a rever o rodapé antes que o próximo processo faça escola deste.

Fonte: The Next Web

Newsletter

Os artigos que importam, duas vezes por semana.

Terça e sexta, cinco minutos de leitura. Sem spam, cancelas quando quiseres.

Comentários · 0