Esta startup treina IA com pele humana viva fora do corpo
A Outer Biosciences diz ter pele humana a viver semanas em laboratório para treinar modelos de IA. A promessa é acelerar a biologia. O problema é tudo o resto.
A Outer Biosciences diz ter pele humana a viver semanas em laboratório para treinar modelos de IA. A promessa é acelerar a biologia. O problema é tudo o resto.
Há startups que treinam modelos de IA com voos baratos de companhias falidas, como contámos quando a Google comprou dados da Spirit para treinar IA. Outras vão mais longe. A Outer Biosciences está a treinar modelos em pele humana viva, mantida fora do corpo durante mais de um mês. Não é metáfora, é literal.
A empresa, cofundada em 2022 por Michael Polansky, nasceu da frustração com o ritmo lento da biologia comparado com o software. O argumento é simples, e difícil de rebater: não é ético experimentar diretamente em pessoas, e os substitutos que a ciência usa, de ratos a organoides, raramente reproduzem o comportamento real de um órgão humano. A Outer tenta abrir um atalho: manter tecido humano vivo em laboratório tempo suficiente para o submeter a baterias de ensaios e alimentar modelos de IA generativa que aprendem a prever como a pele reage a químicos, cosméticos, fármacos.
O detalhe que faz levantar sobrancelhas: a matéria-prima é pele que seria descartada após cirurgias, sobretudo plásticas, obtida através de biobancos e intermediários comerciais “vigiados por comités de ética” e com “consentimento documentado dos dadores”, como o National Disease Research Interchange ou o Cooperative Human Tissue Network. A empresa paga taxas “de recuperação de custos”, não por peça de pele como se fosse um marketplace de órgãos. Em teoria isto está longe do mercado negro. Na prática, estamos outra vez na zona cinzenta onde dados e corpos se encontram, tal como no negócio massivo de dados médicos anónimos.
Polansky não vem da bancada de laboratório. Estudou matemática aplicada e informática em Harvard, passou pelo fundo Bridgewater, entrou em Silicon Valley pela mão de Sean Parker, ajudou a montar o Parker Institute for Cancer Immunotherapy e só depois se atirou de cabeça à biotecnologia. Pelo caminho tornou-se parceiro criativo e romântico de Stefani Germanotta, Lady Gaga, com quem gere desde tours globais, em modo startup itinerante de 200 pessoas, até a marca de cosmética Haus Labs. Gaga está no conselho da Outer Biosciences, o cientista-chefe da Outer sente a pele da beleza ao sentar-se no conselho científico da Haus Labs, e os projectos cruzados entre pele em laboratório e batom em prateleira começam a desenhar-se.
Do ponto de vista estritamente tecnológico, o que a Outer tenta fazer é poderoso: criar um sistema onde tecido humano vivo funciona como “banco de ensaio” contínuo, produzindo dados riquíssimos para alimentar IA que prevê toxicidade, eficácia, envelhecimento da pele ou resposta a novos ingredientes. Se isto funcionar, tanto a indústria farmacêutica como a cosmética ganham uma ferramenta que pode cortar anos e milhões aos ciclos de desenvolvimento. Mas o deslumbramento técnico custa caro: quanto mais perto estamos da realidade humana, mais frágil fica o argumento de que é “só” tecido descartado.
O histórico recente mostra que quando há dinheiro e dados à mistura, o consentimento informado tende a encolher na prática. Em Portugal, como no resto da Europa, o RGPD cobre dados pessoais, não pedaços de pele em formol. E a regulação europeia para IA está focada em dados digitais, não em modelos treinados com tecidos vivos conectados a sensores. Esta espécie de “IA molhada” fica num limbo regulatório confortável para startups rápidas e desconfortável para quem se preocupa com ética. Se a moda pegar, a pele de cirurgias estéticas torna-se o novo petróleo para treinar modelos. A tecnologia pode avançar, mas a pergunta passa a ser outra: quanto do nosso corpo estamos dispostos a transformar em dataset sem fazer demasiadas perguntas.
Fonte: TechCrunch
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