Ulanqab, a cidade no meio do nada que alimenta a IA da China
Energia barata, fibra óptica e muita terra vazia puseram uma cidade da Mongólia Interior no mapa da IA chinesa. Falta-lhe só uma coisa: água.
Energia barata, fibra óptica e muita terra vazia puseram uma cidade da Mongólia Interior no mapa da IA chinesa. Falta-lhe só uma coisa: água.
Duas horas de comboio a oeste de Pequim e sais no que, no mapa da tecnologia, parecia ser um vazio: Ulanqab, na Mongólia Interior. Em menos de uma década, este sítio associado a pastagens, minas de carvão e pouco mais tornou-se um dos aglomerados de data centers de crescimento mais rápido da Ásia, peça central da nova aposta chinesa em capacidade de computação para IA.
Desde 2016, quase 100 centros de dados abriram ou entraram em construção na cidade. As empresas chinesas já prometeram ali projetos com capacidade combinada de 12,5 gigawatts, mais de metade anunciados só no último ano. Para escala: o projeto Stargate, o supercluster de 10 gigawatts que OpenAI e parceiros querem erguer, fica aquém do que está em cima da mesa para este canto da Mongólia Interior. A periferia chinesa começa a parecer-se perigosamente com o novo centro de gravidade da IA.
Há três razões óbvias. Primeiro, o clima. Ulanqab está em altitude, com invernos longos e frios, o que reduz brutalmente os custos de arrefecimento dos servidores. Segundo, a proximidade relativa a Pequim e ao leste densamente povoado. Duas ligações de fibra óptica dedicadas, concluídas em 2017 e 2019, baixaram a latência para menos de 5 milissegundos, suficiente para inferência em tempo real. Terceiro, o preço da energia. A região combina forte crescimento de eólica e solar com carvão abundante. Para empresas que gastam milhões em electricidade, isto pesa mais do que qualquer discurso sobre neutralidade carbónica.
Mais curioso ainda é quem está a puxar pelo boom. Durante anos, muitas empresas de IA na China limitaram-se a alugar capacidade na nuvem. Agora, nomes como DeepSeek, ByteDance, Alibaba ou Xiaohongshu avançam para infraestruturas próprias em Ulanqab. A mudança aproxima o modelo chinês do que os gigantes dos EUA andam a fazer, ainda que com menos alarido público. É a prova de que a corrida à IA não se decide só em modelos ou chips, decide-se também em betão, cabos e subestações.
Este mapa não nasceu ontem. A Mongólia Interior já era um polo de data centers, com Huawei a instalar-se em 2016 e a Apple a seguir em 2019. Em 2021, a região foi formalmente integrada no projeto estatal “Dados de Leste, Computação de Oeste”, que empurra armazenamento e computação intensiva para o interior do país. O detalhe que a moda da IA desbloqueou é simples: treino de modelos aguenta latências que tornavam estes centros pouco interessantes para aplicações clássicas. Quando um treino leva semanas ou meses, estar a centenas de quilómetros da costa deixa de ser drama.
O calcanhar de Aquiles é outro: água. Ulanqab é tão seco como Denver, com cerca de 35 cm de chuva por ano. O governo local já se vê aflito para cumprir o consumo doméstico antes sequer de muitos destes centros arrancarem. Em julho, a empresa de água foi forçada a desligar parte do abastecimento sete horas por noite para segurar o pico de procura. No inverno, o frio ajuda a reduzir a água necessária para arrefecimento, mas dois meses mais quentes bastam para expor a tensão entre ambição de IA e limites ambientais. Quando se olha para a forma como a China disputa influência em infraestruturas de computação noutros países, do Sudeste Asiático ao Brasil dos seus novos supercomputadores de IA divididos entre China e EUA, percebe-se que Ulanqab é menos uma curiosidade geográfica e mais um protótipo: como espremer cada watt e cada gota ao serviço da próxima vaga de IA.
Fonte: Wired
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