CIêNCIA

Europa trava upgrades do Ariane 6 e expõe a factura escondida

A ESA congelou o “Block 3” do Ariane 6, incluindo um novo estágio superior leve. A conta por lançamento já passa os 100 milhões de euros, antes de o cliente pagar um cêntimo.

Europa trava upgrades do Ariane 6 e expõe a factura escondida

O Ariane 6 fez aquilo que muitos novos foguetões não conseguem: entrou em serviço sem dramas épicos. Oito lançamentos em dois anos, todos com satélites em órbita. Em pleno caos pós-Ucrânia, quando a Europa cortou laços com foguetões russos e deixou de depender de slots comprados à SpaceX de Elon Musk, isto vale ouro geopolítico. O problema é que esse ouro é pago em euros públicos, e em quantidade.

A Agência Espacial Europeia (ESA) decidiu agora pôr no congelador os upgrades “Block 3” do Ariane 6, noticiados pelo European Spaceflight. A peça central seria o estágio superior ICARUS, em materiais compósitos mais leves. Menos peso em cima, mais carga útil, mais flexibilidade para missões científicas ambiciosas, como uma sonda europeia para Encélado, a lua gelada de Saturno. Ao cancelar esta evolução, a Europa está a dizer às suas próprias missões de ciência profunda: desenrasquem-se com o que há, ou esperem pelo próximo foguetão.

Por baixo desta decisão está uma aritmética pouco simpática. O preço oficial de um lançamento Ariane 6 continua escondido, mas as estimativas apontam para 80 a 100 milhões de euros por voo. E mesmo assim, segundo o diretor-geral da ESA, Josef Aschbacher, cada lançamento precisa ainda de 32 a 38 milhões de euros em subsídios directos dos Estados-membros, assumindo um ritmo de nove voos por ano. Somando o investimento inicial de 3,6 mil milhões de euros em desenvolvimento e base de lançamentos na Guiana Francesa, a conta por lançamento para o contribuinte europeu passa facilmente os 100 milhões de euros antes sequer de o cliente, público ou privado, pagar à Arianespace.

À superfície, ver a Amazon comprar 18 lançamentos Ariane 6 para a sua constelação Kuiper parece sinal de saúde comercial. Na prática, é duvidoso que a Europa esteja a ganhar dinheiro com estes contratos. O que ganha é carga para encher o manifest e justificar fábricas e cadeias de produção que, por enquanto, vivem de subsídio. E tudo isto num mercado em que a concorrência reutilizável dos Estados Unidos e da China aperta, como se viu quando a China aterrou o primeiro foguetão reutilizável privado. Manter um foguetão totalmente descartável em 2026 é jogar em desvantagem estrutural.

A ESA fala em aumentar a cadência anual de 10 para 12, 15 ou até 20 lançamentos. Em teoria, mais voos diluem custos fixos. Na prática, para um foguetão não reutilizável isso significa multiplicar produção de motores, estágios e carenagens, com novos investimentos industriais e logísticos. Os ministros europeus terão de decidir se despejam ainda mais dinheiro em capacidade de um sistema que só é competitivo porque o preço final é artificialmente baixo graças ao subsídio, algo que já víamos no historial da família Ariane e que abordámos quando falámos da paciência da ArianeGroup.

A alternativa é aceitar que o Ariane 6 é um tampão estratégico provisório e canalizar fundos para um sucessor com reutilização parcial, capaz de enfrentar a frota de foguetões reutilizáveis que cresce nos EUA e na China. O congelamento do Block 3 parece um primeiro passo nessa direção: menos dinheiro em dietas de meio da carreira, mais foco no próximo atleta. A decisão que os ministros tomarem até ao fim do ano, entre esticar a vida de um foguetão caro ou acelerar o salto para algo mais moderno, vai mostrar se a Europa quer mesmo competir no espaço comercial, ou se se resigna a pagar para não depender dos outros.

Fonte: Ars Technica

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