IA

Esta fibra oca quer redesenhar o mapa dos centros de dados

A Relativity Networks levantou 22 milhões de dólares para vender fibra de núcleo oco que corta a latência quase a meio. Em plena febre de IA, isto mexe no GPS dos data centers.

Esta fibra oca quer redesenhar o mapa dos centros de dados

Os centros de dados estão a ficar sem chão. Não metaforicamente, fisicamente. Entre lutas políticas locais, limites da rede eléctrica e custos de terrenos, constrói-se onde ainda é tolerado. O detalhe que toda a gente aceitava como dado adquirido era a velocidade da fibra. A Relativity Networks aparece precisamente aí a dizer que não: a fibra pode ser bastante mais rápida.

A empresa norte-americana anunciou uma ronda de 22 milhões de dólares em notas SAFE, liderada por fundos como a Rhapsody Venture Partners, e um contrato adicional de 40 milhões de dólares com um grande hyperscaler sem nome. O produto é fibra de núcleo oco, uma tecnologia raramente usada que faz passar a luz por um canal vazio em vez de vidro. Resultado: sinais que podem viajar cerca de 50% mais depressa que na fibra tradicional, aproximando-se do limite teórico da velocidade da luz.

O CEO Jason Eichenholz põe números no argumento: num quilómetro de fibra convencional, um sinal demora cerca de cinco microssegundos; com fibra oca, desce para três vírgula cinco. Parece irrelevante até lembrares que os centros de dados de IA de hoje já não são uma sala cheia de GPUs, são campi que ocupam centenas de hectares, muitas vezes vários edifícios e, cada vez mais, vários campi ligados entre si. A latência da fibra deixou de ser ruído e passou a ser gargalo físico.

A tese da Relativity é simples e pragmática. Se cortas a latência pela metade, podes separar os edifícios metade outra vez antes de estragares o tempo de resposta. Isto encaixa directamente naquela tendência que já vimos em projectos de energia e refrigeração para centros de dados, como as pilhas de hidrogénio para alimentar campi inteiros. A geografia torna-se um parâmetro de engenharia. Em vez de forçar toda a infraestrutura para um mega-complexo numa região que já não tem margem na rede eléctrica, passa a ser mais aceitável espalhar o sistema por vários locais e tentar que a fibra faça o resto.

Para mercados como Portugal, que andam a cortejar centros de dados com promessas de energia renovável e água do Atlântico, a conversa é menos abstracta do que parece. Se um hyperscaler consegue tratar três edifícios separados por dezenas de quilómetros como uma só máquina sincronizada, a negociação já não é apenas sobre um terreno gigantesco junto a uma subestação, é sobre um conjunto de nós possíveis numa região inteira. Um país na periferia da Europa passa de “longe dos grandes mercados” a “latência aceitável” se a fibra encurtar o relógio.

Há, claro, o lado menos glamoroso. Fibra de núcleo oco continua cara de produzir, exige processos de fabrico exigentes e a sua adopção depende de operadores e integradores que gostam pouco de mexer em infra-estruturas que “já funcionam”. A diferença de microssegundos também não interessa a tudo. Mas em IA de larga escala, trading financeiro ou aplicações científicas sincronizadas, estes ganhos começam a valer CAPEX sério. Se a primeira era da IA foi “mais GPUs”, e a segunda foi espremer a rede dentro do centro de dados, a terceira pode muito bem ser esta: desenhar o mapa à volta da fibra que temos, e não o contrário.

Fonte: TechCrunch

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