CIêNCIA

Dois grandes eclipses vêm aí. E Portugal entra no mapa

Depois do espectáculo de agosto, a década ainda guarda dois eclipses de longa duração, um total e um anular. Ambos justificam já hoje reservar férias, voos e óculos certificados.

Dois grandes eclipses vêm aí. E Portugal entra no mapa

Se achaste o eclipse total de 12 de agosto impressionante, convém saber que foi só o aquecimento. A próxima década tem dois alinhamentos raros no calendário, com durações que não voltam tão cedo, e convém planear com a frieza com que se marca um concerto esgotado meses antes.

O primeiro chega a 2 de agosto de 2027 e já ganhou o rótulo de “eclipse do século” por uma razão simples: a fase de totalidade pode chegar aos 6 minutos e 23 segundos. Para comparação, o eclipse de agosto teve pouco mais de 2 minutos de Sol totalmente tapado. Em termos práticos, é quase três vezes mais tempo com o dia a cair numa penumbra estranha, temperaturas a descer e o horizonte a brilhar a 360 graus. Em astronomia amadora, 6 minutos assim são luxo absoluto.

O caminho estreito da sombra total começa no sul de Espanha e norte de África, passa por Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egipto, segue pela Arábia Saudita e Iémen e morre na Somália. Espanha será o único país europeu continental com totalidade a sério, tirando o caso particular de Gibraltar. Para Portugal isto significa o inevitável: aviões, comboios e muita logística se quiseres mesmo ver o Sol desaparecer por completo. Quem ficar por cá terá apenas um eclipse parcial, interessante, mas longe do impacto de estar debaixo da sombra total. Se dúvidas houvesse, basta olhar para o investimento em instrumentos dedicados como o espectrómetro CISS que só “vive” para um único eclipse.

O ponto alto deste eclipse será no Egipto. A sombra vai atravessar Tebas, com os templos de Karnak e Luxor, e passar muito perto do Vale dos Reis. As pirâmides de Gizé ficam de fora da faixa de totalidade, com apenas um parcial, o que não vai impedir milhares de pessoas de lá irem… mas é um exemplo clássico de como turismo e ciência nem sempre alinham. Quem quer mesmo ver o fenómeno científico tem de seguir a faixa estreita, não o postal turístico.

O terceiro acto do chamado trio ibérico acontece a 26 de janeiro de 2028, com um eclipse anular. Aqui a Lua não cobre o Sol por completo, deixa um anel de luz, o famoso “anel de fogo”. A faixa de anularidade começa no Equador e Peru, atravessa o Brasil, cruza o Atlântico e termina na Península Ibérica, com Portugal finalmente dentro da zona premium. Tecnicamente, o Brasil leva o prémio da duração: lá o anel mantém-se durante 10 minutos e 27 segundos, o que mete este evento entre os eclipses anulares mais longos do século.

Em Portugal e Espanha, o espectáculo será mais curto mas potencialmente mais fotogénico. Em cidades espanholas como Sevilha, Córdoba, Albacete e Valência, o anel de fogo dura cerca de sete minutos e acontece muito perto do horizonte, pouco antes do pôr do Sol. No lado português, o cenário deverá ser semelhante: horizonte baixo, atmosfera espessa, luz quente. Um pesadelo para sensores sem boa gama dinâmica, mas um sonho para quem já treinou como fotografar um eclipse sem fritar a câmara do telemóvel. Com bilhetes de avião a inflacionar perto das datas e alojamento a desaparecer em cima da hora, o verdadeiro alinhamento raro aqui não é só Sol, Terra e Lua. É agenda, orçamento e algum planeamento com anos de antecedência.

Fonte: Wired

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