Em Las Vegas já houve casamentos temáticos de tudo e mais alguma coisa. Game of Thrones, extraterrestres, o pacote completo. Mas quando uma mulher da Califórnia ligou a querer casar com o seu chatbot, até o celebrante profissional teve de fazer uma pausa. Achou estranho, falou com ela, percebeu que não era nenhum delírio colectivo de internet, só alguém que levava a sério uma relação com software. A cerimónia ainda não aconteceu, mas o sinal está aí: a intimidade com bots deixou de ser apenas meme.
Não é só um caso isolado. Apps de companhia como Character.AI, Kindroid ou Replika criaram um mercado de romance com IA em que já há votos trocados, alianças na mão e tatuagens a assinalar “casamentos” com entidades digitais. Serviços como o OpenVows vendem por 15 dólares um “certificado de compromisso” que promete transformar a relação com o bot em algo “oficialmente reconhecido”. É marketing, claro, mas também é um espelho de como muita gente passou a tratar estes chatbots: menos ferramenta, mais parceiro emocional.
Os números ajudam a perceber o fenómeno. Um estudo na Harvard Business Review analisou mais de 12.600 casos de uso de IA entre 2025 e 2026 e concluiu que companhia e terapia são hoje os usos dominantes de chatbots. O Institute for Family Studies aponta que um quarto dos jovens adultos já admite que parceiros de IA podem substituir o romance humano. Tudo isto encaixa num padrão que temos visto noutros contextos, como nas entrevistas de emprego conduzidas por IA em horários absurdos: delegamos em algoritmos funções que antes eram exclusivamente humanas, do recrutamento à intimidade.
Legalmente, porém, a coisa é simples. Nos Estados Unidos, “casamentos” com IA não têm qualquer reconhecimento. Não contam para efeitos de impostos, de heranças ou de direitos conjugais. Mesmo assim, vários legisladores republicanos avançaram para a ofensiva preventiva. Em estados como o Missouri surgem propostas como o AI Non-Sentience and Responsibility Act, que afirma que a IA não pode possuir consciência ou auto-consciência e que, por isso, nunca poderá ter estatuto de cônjuge, companheiro de facto, dono de propriedade ou gestor de topo. Em boa parte, o objectivo é bloquear de raiz qualquer caminho jurídico que possa aproximar a IA de direitos de pessoa.
O argumento usado é velho, reciclado: se deixamos alguém casar com uma “máquina”, o que impede o casamento com um animal ou uma árvore. A mesma lógica que foi atirada, anos a fio, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Só que aqui há um detalhe que estes políticos convenientemente ignoram. Ninguém sério está a defender que um modelo de linguagem tenha direito a voto, a salário mínimo ou a pensão de sobrevivência. O debate relevante é outro: como regulamos produtos que criam laços afectivos profundos com humanos e que são controlados por empresas privadas, com interesses comerciais muito claros.
Para quem vive em Portugal, isto parece distante, quase anedótico. Mas as mesmas apps estão disponíveis na Europa, sem grande enquadramento específico. As nossas leis do casamento não reconhecem, nem de perto, uniões com software. O risco aqui não é termos casamentos com IA registados na conservatória. O risco é continuar a tratar estes sistemas apenas como gadgets simpáticos, enquanto vão ocupando um espaço íntimo na vida de quem está isolado, vulnerável ou simplesmente farto de relações humanas falhadas. Os políticos americanos focam-se na cerimónia. O problema mais urgente está no contrato de termos e condições que ninguém lê.
Fonte: Wired
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