Os robôs de segurança com câmaras e IA chegaram a ser vendidos como o futuro da vigilância: patrulhas autónomas em centros comerciais, estações de metro, parques públicos. Uma década depois, o rasto é menos de ficção científica e mais de contratos cancelados e máquinas encostadas a um canto.
Uma investigação da Proof News, em parceria com a 404 Media, identificou pelo menos 21 implementações deste tipo de robô desde 2015. Treze já acabaram. A Knightscope, empresa da Califórnia que se tornou espécie de mascote destes “robocops”, lidera tanto na contagem de contratos como na de cancelamentos. O caso mais mediático foi o do K5 em Times Square, em Nova Iorque: apresentado com pompa pelo então autarca Eric Adams para patrulhar o metro à noite, acabou o piloto e o robô ficou a ganhar pó numa loja vazia. Nem relatório de impacto, nem renovação.
Em Dublin, Ohio, outro Knightscope, baptizado DubBot, foi retirado ao fim de menos de 10 meses, apesar de estar previsto para dois anos. A cidade reconheceu que o robô “não cumpriu as necessidades operacionais” e, mais revelador, não detectou um único incidente nem originou multas ou detenções. Traduzindo: o brinquedo era caro e pouco útil. Não surpreende quem trabalha em segurança privada há mais tempo. Sheila Sparks, dona de uma empresa de vigilância na zona, resume o óbvio que o marketing tentou ignorar: em conflitos reais, o factor decisivo é a capacidade humana de acalmar situações tensas. “Um robô não consegue fazer isso.”
A resposta da Knightscope é um recuo discretamente embrulhado em “nova estratégia”. A empresa comprou a Event Risk, uma firma de segurança com guardas humanos, e promete agora um modelo híbrido: robôs, software de IA e, crucialmente, pessoas. Precisa que resulte. De acordo com documentos entregues ao regulador norte-americano, acumula prejuízos desde 2013 e cerca de 273 milhões de dólares de dívida, enquanto persegue uma fatia de um mercado de segurança física que estima em 230 mil milhões de dólares por ano. A frase do CEO William Santana Li é sintomática: “A tecnologia não pode fazer tudo, nem as pessoas, mas a combinação pode ser muito poderosa.” Tradução menos polida: a narrativa de que a máquina ia substituir o guarda não aguentou o contacto com a realidade.
O problema não é só comercial, é técnico. Como explica a especialista em robótica Missy Cummings, da George Mason University, os sistemas de decisão com IA funcionam bem em cenários estreitos e previsíveis, mas portam-se “miseravelmente” quando saem do tipo de situações para que foram treinados. Patrulhar espaços públicos implica lidar com comportamentos ambíguos, improviso, contextos sociais que não cabem num dataset. Já vimos isto noutros lados: câmaras com reconhecimento facial que falham mais em minorias, ou algoritmos de surveillance pricing que transformam dados de consumo em armas contra o consumidor, tema que já analisámos em detalhe em surveillance pricing.
Nos EUA, uma recente decisão da Federal Communications Commission proibiu a importação de certos robots móveis estrangeiros por alegadas razões de segurança nacional, por causa das capacidades de vigilância. Isto pode dar algum fôlego às empresas locais como a Knightscope. Não resolve, contudo, a questão central: estes robôs não estão a provar, na prática, que valem o que custam. Entre atropelar o pé de uma criança num centro comercial da Califórnia e “afogar-se” numa fonte em Washington, a história pública destes robôs tem mais episódios de embaraço do que de prevenção de crime. Para quem em Portugal olha para a tentação de automatizar ainda mais a vigilância em espaços públicos, a lição é simples: antes de comprar um robô guardião, convém perguntar se não se está só a pagar caro por uma câmara com rodas e bom press release.
Fonte: 404 Media
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