Entrevistas de emprego às 1 da manhã, conduzidas por IA
Entrevistas automatizadas estão a colonizar o primeiro contacto com candidatos. Dão flexibilidade aos empregadores, drenam energia aos candidatos e empurram o trabalho para depois das 22h.
Entrevistas automatizadas estão a colonizar o primeiro contacto com candidatos. Dão flexibilidade aos empregadores, drenam energia aos candidatos e empurram o trabalho para depois das 22h.
Se já andaste a enviar currículos nos últimos meses, a cena é familiar: e-mail simpático do RH, promessa de “entrevista inicial”, link para uma plataforma qualquer e, no fim, nada de pessoas. Só um cronómetro no ecrã, uma câmara ligada e um algoritmo que decide se vale a pena alguém falar contigo.
Nos Estados Unidos começa a ficar claro o que isto significa em horários: cerca de um quarto das entrevistas feitas com software de voz da Ribbon acontecem entre as 22h e as 2h da manhã, e em fábricas chega a 35 por cento. A Greenhouse, outro gigante do recrutamento com IA, fala em 15 a 20 por cento dos candidatos a marcarem entrevistas nocturnas. Números americanos, sim, mas a tendência bate certo com o que já se vê em Portugal em call centers, retalho, tecnologia e outsourcing: ferramentas tipo HireVue, Harver ou equivalentes europeias a ocuparem o “primeiro filtro”.
Para as empresas, a narrativa é sedutora: flexibilidade. Candidatos que trabalham por turnos, pais que só ficam livres depois de deitarem os miúdos, pessoas que não podem sair do trabalho actual para ir a uma entrevista às 15h. A IA está “sempre ligada”, por isso o processo avança enquanto o RH dorme. O problema é que esta flexibilidade é quase toda de um lado: o tempo de quem contrata continua protegido, o dos candidatos desliza para a noite, para o fim de semana, para aquele intervalo mental em que já devias era estar a desligar.
Também não ajuda a opacidade do processo. A maioria destas plataformas faz scoring automático: define um rubric por vaga, desde certificações técnicas até métricas nebulosas como “entusiasmo”, analisa o vídeo ou o áudio e cospe um número. Esse número sobe ou desce candidatos na pilha. Em teoria, o recrutador volta a ver a gravação. Na prática, com centenas de entrevistas automatizadas, muita decisão acaba tomada pelo ranking do algoritmo. Como o vídeo costuma ficar armazenado, sobra a pergunta incómoda: quanto tempo, com que segurança e para que usos futuros?
Não espanta que a resistência cresça. Um inquérito da própria Greenhouse mostra quase dois terços dos candidatos já entrevistados por um agente de IA, mas 38 por cento dizem ter abandonado processos em vez de aceitar a entrevista automatizada, e mais 12 por cento abandonariam se lhes fosse imposta. A promessa de que isto é apenas um “add-on ao currículo”, como defendem alguns responsáveis, falha um ponto básico: quando o mercado está saturado, transformar o primeiro contacto num teste gravado às 23h é mais uma barreira, não menos.
Para quem recruta a partir de Portugal, há um equilíbrio delicado que ainda não está a ser bem gerido. A legislação laboral e de protecção de dados da UE dá alguma margem aos candidatos, mas se o filtro inicial for feito por IA fora da Europa, em plataformas opacas, o RGPD entra logo em zona cinzenta. E, mesmo que tudo esteja legalmente impecável, sobra a questão de cultura: que mensagem passa uma empresa que só “conhece” as pessoas através de um vídeo ansioso gravado no sofá à meia-noite, a falar para ninguém? Quando o primeiro gesto de uma relação de trabalho é desumanizar o outro lado, não é o algoritmo que está a mais, é a prioridade.
Fonte: Wired
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