CIêNCIA

Espelhos espaciais aprovados nos EUA alarmam astrónomos e médicos

A FCC deu luz verde a um satélite-espelho que promete sol por encomenda. Astrónomos avisam que o preço pode ser ciência arruinada, mais poluição luminosa e riscos reais para a visão.

Espelhos espaciais aprovados nos EUA alarmam astrónomos e médicos

Um espelho de 18 metros quadrados em órbita, a refletir a luz do Sol para um feixe com cerca de 5 km de largura em qualquer ponto da Terra. Parece ficção científica otimista, mas a empresa californiana Reflect Orbital já tem autorização da FCC, o regulador das comunicações dos EUA, para lançar o satélite de teste Eärendil‑1. A ambição declarada é montar uma constelação com até 50.000 espelhos espaciais para alimentar centrais solares, turbinar agricultura e apoiar operações de busca e salvamento durante a noite.

O problema é tudo o resto. Estimativas independentes apontam para um brilho comparável ao de Vénus quando visto de fora do feixe e, dentro dele, cerca de quatro vezes o brilho da Lua cheia. Isto não é mais uma constelação de telecomunicações discreta, é um projetor orbital. Astrónomos nos EUA e no Reino Unido, através da American Astronomical Society (AAS) e da Royal Astronomical Society (RAS), já avisaram que a decisão da FCC pode ter efeitos desastrosos na astronomia e na segurança pública.

A poluição luminosa já hoje obriga telescópios a fugir para desertos e cimos de montanhas, enquanto as cidades apagam as estrelas com iluminação LED mal pensada. Em Portugal, quem já visitou um observatório ou olhou para imagens de projetos como o maior telescópio solar do mundo percebe o nível de detalhe que depende de céus escuros e estáveis. Agora imagina meter no meio disto um espelho móvel, muito brilhante, a varrer o planeta à passagem. Cada reflexo forte é um rasto saturado nas imagens, dados perdidos e horas de observação inutilizadas.

Mas o aviso não é só para quem aponta telescópios profissionais. O risco mais cru é para a visão. Um feixe quatro vezes mais brilhante do que a Lua, concentrado numa área relativamente pequena, é uma receita razoável para danos permanentes na retina se alguém estiver a olhar com um telescópio amador no sítio errado à hora errada. O dano é silencioso, irreversível e não depende de ninguém ter autorizado nada no quintal ou no telhado. E não há como um observador em Lisboa, Évora ou Ponta Delgada “optar” fora de um reflexo que lhe passa por cima.

A isto soma‑se o impacto ecológico. A luz artificial noturna já tem efeitos bem documentados nos ritmos circadianos humanos, nas migrações de aves e em ecossistemas marinhos. Um feixe orbital extra, pensado para servir cidades e grandes projetos industriais, é exatamente o tipo de solução tecnológica que ignora tudo o que não aparece no business plan. Tal como o lixo espacial exposto em episódios como o embate de um Falcon 9 na Lua, os custos ficam espalhados no céu, longe da contabilidade da startup.

O mais preocupante para a Europa é o precedente. A FCC olha apenas para interferências de rádio, não para brilho óptico, nem para impactos ambientais globais. Se um regulador nacional consegue, sozinho, autorizar um objeto que pode arruinar observações feitas em observatórios no Chile, nas Canárias ou no Alentejo, a governação do espaço está a falhar. E quando a próxima empresa vier com uma versão maior, mais barata ou mais agressiva deste conceito, não vai ser por falta de avisos. Vai ser porque deixámos que o céu noturno se tornasse só mais um recurso a explorar.

Fonte: The Verge

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