Antes de comprares outro carregador USB-C, há um detalhe que falta
Wattagem não chega. O que interessa mesmo num carregador USB-C está escondido em letras minúsculas, e é isso que decide se o teu telemóvel carrega em 30 minutos ou em duas horas.
Wattagem não chega. O que interessa mesmo num carregador USB-C está escondido em letras minúsculas, e é isso que decide se o teu telemóvel carrega em 30 minutos ou em duas horas.
O mercado cumpriu a ordem de Bruxelas e pôs USB-C em praticamente tudo. Telemóveis, tablets, portáteis, auscultadores, powerbanks. O problema é que a promessa de “um carregador para todos” continua meia conversa: a ficha é universal, o comportamento não. E a diferença entre carregar um Galaxy em 40 minutos ou em duas horas está num pormenor que quase nenhum retalhista destaca e que a maioria de nós ignora.
Durante anos venderam-nos a ideia de que bastava olhar para a potência: 25 W, 45 W, 65 W, quanto mais melhor. Só que não é assim tão simples. USB-C é universal, os protocolos de carregamento não. O que realmente manda é a combinação concreta de tensão (V) e corrente (A) que o carregador consegue fornecer com USB Power Delivery (PD) e, nos modelos mais recentes, com extensões como PPS (Programmable Power Supply). Se o teu carregador não fala exactamente a mesma “língua eléctrica” que o telemóvel, ficas limitado a perfis mais lentos, mesmo com um tijolo de 65 W na tomada.
Os Galaxy da Samsung são o exemplo perfeito deste caos silencioso. O primeiro “45 W” no Galaxy S21 Ultra usava um perfil à volta de 9 V, 5 A, o que obrigava a carregadores e cabos preparados para 5 A. Anos depois, os Galaxy S Ultra mais recentes passaram a preferir algo como 12 V, 3 A para chegar perto dos mesmos 45 W. Muitos carregadores antigos até mostram 45 W no rótulo, mas só oferecem o tal perfil de 9 V. Resultado: o telefone cai para cerca de 27 W, apesar do número vistoso na caixa do carregador.
A escalada continua. O Galaxy S26 Ultra já anda a pedir qualquer coisa como 21 V, 3 A, perto de 65 W. A Google faz o seu próprio malabarismo: Pixels antigos usavam 27 W em 9 V, 3 A, mas os Pixel 9 Pro XL e 10 Pro XL só passam dos 30 W se o carregador suportar 21 V, ainda que com corrente mais baixa. Isto tudo em cima de PPS, USB PD clássico, e no caso da Apple, a variante USB PD AVS para os iPhone recentes. Para quem só quer ver a percentagem subir, é um filme técnico a mais. Para quem se importa com tempo e temperatura da bateria, estes detalhes contam. E sim, contam também para a saúde da bateria, como já discutimos a propósito de hábitos de carregamento que realmente desgastam as células.
O pior é que muitos fabricantes de carregadores não ajudam. Alguns, os mais sérios, listam perfil a perfil: 5 V 3 A, 9 V 3 A, 12 V 3 A, 15 V 3 A, 21 V 3,25 A em USB PD/PPS. Outros limitam-se ao “até 65 W” e a uma lista de modelos “compatíveis”. Tecnicamente funciona, mas não sabes se tens os 12 V de que o teu Galaxy recente precisa ou os 21 V que desbloqueiam os últimos Pixel. A regulação europeia atacou bem o lado físico do problema, ao obrigar ao conector comum. Falta agora meter pressão na transparência das especificações eléctricas, porque lixo electrónico também é ter gavetas cheias de carregadores “bons” que afinal nunca passam de meia potência.
Na prática, o que interessa é aprender a ler o miúdo das letras minúsculas. Esquece só o número grande em W, procura as linhas de USB PD e PPS com as tensões concretas de que o teu equipamento precisa. Se o fabricante de carregadores não as mostra, eu assumo logo que não vale a pena. É o equivalente moderno daqueles transformadores “universais” com adaptadores para tudo, que acabavam sempre a dar menos do que prometiam. A diferença é que agora o conector é o mesmo, o engano é mais subtil, e paga-se em tempo desperdiçado à espera dos 100%.
Fonte: Android Authority
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