CIêNCIA

Perseverance torna-se o rei dos quilómetros em Marte, quase sempre sozinho

O rover da NASA vai bater o recorde de distância em Marte com 90% da condução em modo autónomo. Menos telecomando humano, mais ciência feita no terreno marciano.

Perseverance torna-se o rei dos quilómetros em Marte, quase sempre sozinho

Enquanto discutimos carros autónomos em autoestradas terrestres, o primeiro veículo verdadeiramente autónomo que interessa está a fazer estrada em Marte. O rover Perseverance está prestes a ultrapassar os 45 km percorridos no planeta vermelho, batendo o recorde da Opportunity em cerca de um terço do tempo. Para um robot que anda a 150 metros por hora no máximo, isto não acontece por acaso.

A diferença não está nas rodas, está no cérebro. Perseverance foi desenhado desde o início para se auto-conduzir. As câmaras navegação mapeiam o terreno, o computador a bordo calcula trajectórias seguras, e o rover decide para onde vai sem estar constantemente à espera de ordens da Terra. Steven Lee, gestor do projecto no Jet Propulsion Laboratory da NASA, resume bem: o sistema de auto-navegação é a tecnologia que destravou tudo o resto. O contraste com o Curiosity, um quase gémeo lançado nove anos antes com hardware de finais dos anos 90, é violento. Em Curiosity, só cerca de 10% dos percursos são autónomos. Em Perseverance, 90% da distância foi feita em piloto automático.

Esta diferença de filosofia nota-se no tipo de ciência que se consegue fazer. Curiosity aterrou na cratera Gale e tem subido lentamente o Monte Sharp, a fazer medições detalhadas, quase como um laboratório fixo que se mexe pouco. Perseverance foi largado na cratera Jezero com um mapa de objectivos espalhado. Em vez de viver agarrado a um único monte, atravessa zonas, liga pontos distantes, aparece em novos locais antes do calendário previsto. A equipa científica admite que o carro tem surpreendido o próprio planeamento, no bom sentido. Quando comparado com os recuos recentes da NASA em missões lunares, como o cancelamento do rover VIPER que contámos em detalhe em como a agência recuou perante a conta gigante de um rover reciclado, Perseverance é quase um manifesto a favor de investir bem no que vai para o terreno.

Jezero não é um areal qualquer. Perseverance anda por rochas com cerca de 4 mil milhões de anos, mais antigas do que qualquer rocha que temos na Terra. São restos de um Marte ainda a levar com o final do “bombardeamento intenso” de detritos do Sistema Solar, mas já com lagos grandes e, possivelmente, oceanos. A missão não está só a coleccionar fotografias bonitas: está a medir química, textura e contexto geológico destes depósitos antigos para perceber quão amigável teria sido Marte para a vida microbiana. Há quem goste de o comparar ao deserto de Mojave com água a correr. A diferença é que Mojave está a duas horas de carro de Los Angeles. Jezero está a vários minutos-luz de distância e não há margem para enganos.

Daqui em diante, a pergunta não é se Perseverance aguenta, é durante quanto tempo a NASA vai confiar num sistema que já superou em muito as especificações originais. Os actuadores das rodas foram testados para 20 km e estão agora a ser recertificados para pelo menos 100 km de condução. As rodas foram redesenhadas depois das dentadas que Curiosity levou no metal, e até agora não mostram desgaste relevante. Em Marte, como em qualquer estrada rural, o que mata um veículo não é a lei da física, é a avaria chata que não se consegue reparar. Se o piloto automático continuar a tomar decisões sensatas, Perseverance vai acabar por nos obrigar a uma outra discussão: se um rover anda sozinho há anos em Marte, porque é que continuamos a tratar os carros autónomos aqui na Terra como ficção científica frágil.

Fonte: Ars Technica

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