Unitree prepara IPO em Xangai avaliada em mais de 6,5 mil milhões €
O maior nome chinês em robôs humanoides vai a mercado com valorização acima dos 50 mil milhões de yuan. Pequim olha para o IPO como teste de stress à sua aposta em robótica.
O maior nome chinês em robôs humanoides vai a mercado com valorização acima dos 50 mil milhões de yuan. Pequim olha para o IPO como teste de stress à sua aposta em robótica.
Um dos nomes mais falados da robótica chinesa vai finalmente medir-se com o escrutínio das bolsas. A Unitree, fabricante de robôs de quatro patas e humanoides, arranca a oferta pública inicial em Xangai com uma avaliação de referência acima de 50 mil milhões de yuan, algo como 6,5 mil milhões de euros. O número vem da CITIC Securities, patrocinadora do IPO, que está a liderar o processo no STAR Market, o segmento tecnológico da bolsa de Xangai.
Esta é a parte oficial. Menos oficial, mas igualmente relevante, são as estimativas que apontam para um valor ainda mais alto, dependendo do preço final por ação. O apetite pelo título parece real, alimentado por duas narrativas que o mercado adora: crescimento rápido e selo estratégico do Estado. A Unitree diz esperar aumento de receitas no primeiro semestre, numa altura em que a procura por robôs humanoides acelera. Em Pequim, a leitura é óbvia, um IPO vistoso em casa ajuda a cimentar a ideia de liderança em robótica, enquanto a China disputa com os Estados Unidos a tal “IA física”.
Convém lembrar porque é que a Unitree conta. A empresa ganhou nome ao apertar agressivamente os preços. Os seus robôs quadrúpedes e humanoides custam muito menos do que as alternativas ocidentais, o que abriu a porta a universidades, developers independentes e até entusiastas com orçamento limitado. Ao transformar robôs que pareciam peças de laboratório em produtos que podiam ser efetivamente comprados, sem orçamentos estilo Boston Dynamics, a Unitree ajudou a criar uma base de programadores em torno do seu hardware. A lógica não é muito diferente do que vimos em projetos como o Milo, o cão-guia robótico open-source, mas aqui com músculo industrial e alinhamento político de Pequim.
O Estado chinês não está a ver isto de fora. A robótica humanoide foi elevada a prioridade nacional, e manter um “campeão” cotado em bolsa doméstica é parte do guião. Listar a Unitree no STAR Market evita uma ida a Nova Iorque ou Hong Kong, e garante que capital e controlo regulatório ficam em casa. Ao mesmo tempo, outros players locais seguem caminho semelhante, como a EngineAI, que se prepara para um IPO em Hong Kong. Em paralelo, há quem tente precisamente o oposto, construir robôs sem depender da China, como contámos na análise à startup europeia que quer montar robots com cadeia de fornecimento alternativa.
A procura por estes robôs também já não vive só de demos em feiras. Construtores automóveis chineses aparecem entre os clientes, e a BYD, por exemplo, quer pôr um robô humanoide nas suas lojas, um uso prosaico mas importante, porque mostra aos investidores onde está o potencial de faturação para lá dos vídeos virais. Do lado do software, sistemas como os modelos Gemini Robotics da Google DeepMind começam a controlar o corpo inteiro de humanoides, reduzindo a distância entre “andar sem cair” e fazer tarefas úteis. Ou seja, a tese de investimento deixou de ser ficção científica pura.
Para quem está em Portugal, esta dança de bilhões pode parecer distante, mas não é. Uma Unitree bem financiada significa ainda mais pressão sobre fabricantes europeus e norte-americanos, que já lutam para competir em preço e escala. Significa também que qualquer empresa que queira robótica avançada para logística, indústria ou serviços terá quase inevitavelmente de olhar para hardware e componentes chineses. O IPO em Xangai é um momento simbólico, mas o verdadeiro teste vem depois, quando o mercado tiver de decidir se estes robôs são negócio sustentável ou só mais uma bolha alimentada a hype geopolítico.
Fonte: The Next Web
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