A startup que tenta montar robots sem depender da China
A Ati Robotics montou uma cadeia de fornecimento quase sem peças chinesas. Com os EUA a apertar a torneira aos humanoides da China, esta teimosia pode ter retorno.
A Ati Robotics montou uma cadeia de fornecimento quase sem peças chinesas. Com os EUA a apertar a torneira aos humanoides da China, esta teimosia pode ter retorno.
Os reguladores dos EUA decidiram recentemente proibir uma série de robots avançados fabricados na China, incluindo humanoides. No meio deste braço-de-ferro geopolítico, uma pequena empresa indiana, a Ati Robotics, aparece com um argumento raro no mundo da robótica moderna: diz ter modelos praticamente livres de componentes chineses.
A empresa nasceu em 2017 a pensar em motores para carros autónomos, mas acabou a focar-se em robots industriais: tuggers que puxam toneladas de material em armazéns e fábricas, e veículos que movem paletes. Em vez de fazer o que quase toda a gente faz, que é desenhar software em Silicon Valley e encomendar hardware barato à China, a Ati decidiu desenvolver grande parte do hardware em casa, em Bangalore. Foi um conselho contracorrente, segundo o fundador Saurabh Chandra, mas que hoje funciona como seguro político.
O truque da Ati foi encostar-se à vaga de veículos elétricos ligeiros na Índia. Os robots partilham perfis de potência com motas e triciclos elétricos, por isso a empresa aproveitou componentes e cadeia de fornecimento que já estavam a ser montados para esse mercado. Peças automóveis tendem a ser fiáveis e produzidas em grande escala, o que baixa o custo. Deu trabalho adaptar tudo a robots, mas o resultado foi um conjunto de máquinas competitivas em preço e desempenho, com muito menos dependência da China do que a concorrência.
Nos modelos mais vendidos, o quadro é quase extremo: o tugger de 10.000 libras é descrito pelo próprio fundador como “realmente livre da China”, com a exceção das células da bateria, e o movimentador de paletes terá menos de 5 por cento de peças chinesas. A grande diferença está em escolhas técnicas deliberadas. A Ati usa motores de indução, sem ímanes permanentes, ao contrário de muitos robots que recorrem a motores brushless com ímanes fabricados na China. Perde-se alguma eficiência energética, compensa-se com mais bateria. É uma opção quase ideológica num sector que se habituou a correr para o fornecedor mais barato.
Quando se entra nos humanoides, o quadro torna-se mais cinzento. O primeiro modelo da Ati, pensado para mover caixas pesadas, ainda depende de engrenagens, harmonic drives e motores sem carcaça vindos da China, além das inevitáveis células de bateria. Chandra admite que por agora não optimizam a cadeia logo de início, mas lembra que há alternativas na Coreia do Sul, Japão, Alemanha ou Taiwan. Em teoria, trocar fornecedores seria mais um problema de custo e engenharia do que um beco sem saída.
Curiosamente, a própria empresa reconhece que esta “resiliência de cadeia de fornecimento” ainda não é o primeiro critério de compra para muitos clientes. Mas em conversas de bastidores já pesa. Com investimentos recorde em robótica e uma guerra comercial a transformar listas de peças em dossiês de segurança nacional, quem conseguir entregar robots competitivos sem passar por Shenzhen ganha moeda de troca. Para quem olha de Portugal para este xadrez, isto significa uma coisa simples: a próxima vaga de robots em fábricas, armazéns ou futuros serviços de mobilidade autónoma não vai ser só uma comparação de especificações e preços, vai ser também um mapa político de onde vêm os parafusos.
Fonte: Wired
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