Quando o preço da gasolina dispara, o discurso ambiental passa para segundo plano. O novo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) mostra isso de forma brutal: no segundo trimestre de 2026, 50 países bateram recordes trimestrais de vendas de veículos eletrificados, de elétricos puros a híbridos plug‑in. As vendas globais de EVs e PHEVs subiram 4 por cento face ao mesmo período de 2025 e 35 por cento em relação ao trimestre anterior. A IEA já projeta que 29 por cento dos carros novos vendidos em 2026 no mundo sejam eletrificados.
O motor desta aceleração não foi uma campanha verde súbita, foi a crise global do petróleo alimentada pelo conflito entre EUA e Irão. A IEA lembra o óbvio que muita política de transportes insiste em ignorar: os veículos rodoviários consomem perto de metade do petróleo mundial, por isso são o primeiro alvo quando há choques de preço e falhas de abastecimento. Traduzido: quem depende do carro todos os dias sente o aperto, olha para os postos e começa a fazer contas ao elétrico, mesmo que ainda não confie totalmente na infraestrutura.
Curiosamente, isto acontece numa fase fraca para a indústria automóvel no geral. As vendas globais de carros caíram 5 por cento na primeira metade de 2026, com quebras fortes na China e nos EUA, os dois maiores mercados. Nos EUA, os elétricos ainda por cima levaram um murro político: a administração Trump eliminou créditos fiscais federais para EVs e afrouxou regras de eficiência para carros a combustão. O resultado era previsível, vendas de elétricos em recuo enquanto se subsidia indiretamente o atraso tecnológico. O contraste com a Europa é evidente, onde políticas de emissões mais duras empurram construtores e consumidores para o lado certo da história.
Fora do eixo China‑EUA, o relatório mostra outra realidade. Índia, Brasil, Austrália e Coreia registaram máximos históricos de vendas de elétricos na primeira metade de 2026. Na Europa, o Reino Unido viu as matrículas de elétricos a bateria crescerem 35 por cento face a 2025, com BEV e PHEV a representarem já 36 por cento de todos os novos registos. Não é um fenómeno isolado, encaixa no que já se vê em vários mercados europeus, onde os carros eletrificados começam a dominar as vendas e as marcas chinesas ganham espaço.
Falando em China, é de lá que vem a verdadeira pressão sobre o resto da indústria. O país não só lidera em vendas, como está a inundar o mundo com produção: a quota de elétricos nas exportações de carros chineses passou de cerca de 35 por cento em 2025 para mais de 45 por cento na primeira metade de 2026, diz a IEA. E há um detalhe desconfortável para fabricantes europeus e americanos, a China está a produzir mais elétricos do que vende, com cerca de um milhão de viaturas a dormir em parques de stock. Ao mesmo tempo controla quase toda a cadeia de valor das baterias, com cadeias de fornecimento integradas, know‑how industrial e custos de produção cerca de 35 por cento mais baixos do que nas economias avançadas.
A IEA fala em “esforços coordenados” entre governos e indústria para reduzir essa distância. Traduzindo do diplomata para o real: se Europa e EUA não se mexerem depressa, vão depender da China para o hardware básico da transição energética, tal como hoje dependem de outros para o petróleo. Em Portugal, onde os preços dos combustíveis já habituaram muitos condutores a fazer contas à bomba, esta combinação de crise do petróleo e avanço chinês é um aviso claro. Ou se acelera a capacidade industrial e a rede de carregamento, ou o carro elétrico que compras daqui a cinco anos pode vir com tecnologia e margem de lucro quase toda feita do outro lado do mundo.
Fonte: Engadget
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