IA

Nvidia despeja 1.000 milhões na IA da Coreia do Sul via Naver e SK

Huang chama-lhe idade dourada, mas o modelo é familiar: a Nvidia investe em quem, no fim, lhe compra GPUs e supercomputadores.

Nvidia despeja 1.000 milhões na IA da Coreia do Sul via Naver e SK

A Nvidia vai investir 1.000 milhões de dólares (~920 milhões de euros) na Naver para financiar um novo data center de IA na Coreia do Sul e assinou ainda um acordo comercial, descrito como superior a 500 mil milhões de dólares, com o conglomerado SK Group. Para um país que já vive de semicondutores, Jensen Huang resolveu carimbar o momento como “idade dourada”. Ele pode estar a exagerar, mas não está a brincar.

No caso da Naver, o dinheiro da Nvidia serve para multiplicar por mais de três a escala do data center em construção: de 55 megawatts para 200 megawatts. O projeto será alimentado por hardware de computação de IA da própria Nvidia, claro. Em paralelo, a gestora de private equity Brookfield assinou um termo de compromisso, ainda não vinculativo, para financiar até 9 mil milhões de dólares adicionais. Resultado: a Coreia ganha um dos maiores pontos de tráfego de IA da região, a Naver sobe de liga e a Nvidia garante mais uma torneira permanente para escoar GPUs.

O pacote com a SK Group é ainda mais ambicioso no papel. Os tais 500 mil milhões de dólares incluem o que a Nvidia planeia gastar a comprar chips de memória de alta largura de banda à SK Hynix, hoje o maior fornecedor mundial deste tipo de memória, e o que várias empresas do grupo coreano se comprometem a gastar em supercomputadores da Nvidia. A SK Telecom vai construir mais de 2 gigawatts de centros de dados de IA na península coreana, com o primeiro a abrir já no próximo ano. São números próprios de utilidade pública, não de um projeto experimental.

Este pacote coreano encaixa na maratona de cheques que a Nvidia anda a passar há mais de um ano. A empresa já comprometeu mais de 40 mil milhões de dólares em participações de capital ligadas à IA, incluindo 30 mil milhões na OpenAI, somou acordos industriais com a Amkor para embalagem de chips e passou pelo Japão para selar entendimentos com a Toyota e empresas de robótica. Os críticos falam em financiamento circular: a Nvidia investe em operadores de centros de dados, neoclouds e agora “parceiros de IA soberana” que, por sua vez, compram o seu hardware. O padrão repete-se aqui, com a Coreia a ganhar escala e a Nvidia a consolidar dependências.

Para a Coreia do Sul, isto é sobretudo uma aposta em manter o país no centro da construção global de infraestrutura de IA, num momento em que as cadeias de fornecimento de chips estão presas entre Washington e Pequim. Samsung e SK Hynix são as únicas empresas capazes de produzir a memória avançada de que os processadores da Nvidia precisam. Garantir um acordo de co-desenvolvimento dá à SK Hynix uma vantagem estrutural face à rival. Para a Nvidia, é uma forma de segurar um componente escasso sem ter de entrar diretamente na produção de memória.

Visto da Europa e de Portugal, o recado é simples: quem controla GPUs e memória manda no ritmo da IA. Quando olhamos para acordos como o da Microsoft com a Mistral para infraestrutura de IA na Europa, ou para a pressão regulatória em torno de novos centros de dados de IA, percebe-se que o jogo não é só de algoritmos, é de betão, energia e contratos de fornecimento a décadas. A Coreia do Sul escolheu alinhar-se profundamente com a Nvidia. A questão para o resto do mundo é quanto consegue negociar antes de aceitar as mesmas condições.

Fonte: The Next Web

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