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IA precisa de data centers, a EPA de Trump quer calar vizinhos

Nova proposta da agência ambiental dos EUA passa o controlo da participação pública para os estados. Em plena corrida aos data centers para IA, o incómodo dos vizinhos deixa de pesar.

IA precisa de data centers, a EPA de Trump quer calar vizinhos

Enquanto a indústria de IA corre para erguer mais data centers, a Administração Trump está a preparar uma alteração de regras que facilita outra coisa: construir infraestruturas poluentes com menos perguntas dos vizinhos. Nos EUA, é a Environmental Protection Agency (EPA, a agência ambiental federal) que define como o público entra nos processos de licenciamento de fontes de poluição do ar. A proposta agora em cima da mesa faz uma coisa muito simples e muito eficaz: empurra essa decisão para cada estado, que pode passar a ter de ouvir o público… ou praticamente ninguém.

O contexto é óbvio. A explosão de modelos de IA precisa de energia a sério e redundância agressiva. Multiplicam-se data centers apoiados por centrais a gás “atrás do contador” e baterias de geradores a diesel. Muitos destes projectos entram na categoria de “fontes menores” na legislação do Clean Air Act, que regula a qualidade do ar. As “fontes maiores” têm revisão pesada, federal e estatal, com audiências públicas obrigatórias. As menores têm menos escrutínio, mas, até aqui, a EPA exigia algum tipo de participação pública. É esse mínimo denominador comum que a proposta tenta apagar.

Na prática, abrir-se-ia a porta a estados que decidem que licenciar uma central a gás para alimentar um mega data center é assunto para ser tratado em papelada e reuniões internas, sem assembleias locais nem prazos claros para comentários. Para muitas comunidades nos EUA, o único momento em que descobrem um projecto é quando surge o aviso do licenciamento no jornal ou no site da agência ambiental. Se essa obrigação cair, grupos locais perdem o radar. Organizações como a Moms Clean Air Force ou centros de litigância ambiental avisam que já hoje só conseguem agir porque escavam estes processos públicos. Tirar essa visibilidade é, basicamente, desarmar a oposição.

É aqui que a corrida à IA entra a matar. Empresas como Amazon, Meta ou as startups de Elon Musk já perceberam que o gargalo da IA não é só chips, é betão e megawatts. Basta olhar para a forma como a Nvidia quer dominar a infraestrutura com a sua plataforma Vera Rubin, ou para acordos tipo o da Microsoft com a Mistral para montar infraestrutura de IA na Europa, para perceber que os data centers são o novo imobiliário estratégico. A diferença é que, na Europa, estes projectos ainda enfrentam um quadro mais rígido de avaliação ambiental e participação pública, reforçado por diretivas europeias. O que a EPA está a fazer é o oposto do caminho europeu.

Os defensores da proposta vendem-na como devolução de poder a estados “mais próximos das comunidades”. A realidade política dos EUA é menos romântica. Muitos estados competem entre si com pacotes de incentivos e regulações mais brandas para atrair investimento em data centers. Se a regra federal deixar de exigir um nível mínimo de consulta, a pressão vai ser para cortar no “atrito” democrático. Georgia e Kentucky, hoje vistos como exemplos de notificação robusta, já admitem que, sem guarda-chuva federal, a tentação para afrouxar regras existe. O suposto localismo acaba a servir mais a pressa das tecnológicas do que o ar de quem vive ao lado das instalações.

Para quem lê de Portugal, isto não é apenas drama americano. A cadeia global da IA não tem fronteiras e o incentivo para replicar atalhos regulatórios é real, sobretudo quando gigantes que aqui conhecemos pelas clouds e lojas online tentam fechar o círculo com geração própria. Se os EUA começarem a mostrar que é possível erguer quilómetros de racks e chaminés com mínimos de escrutínio, a fasquia política baixa para toda a gente. A discussão sobre IA não é só sobre algoritmos generativos e emprego, é sobre onde e como aceitamos concentrar poluição e consumo de energia. A EPA pode dizer que não mexe nos limites de emissões, mas quando se mexe em quem tem o direito de falar, o resultado final no terreno costuma ser bem visível.

Fonte: Ars Technica

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