CIêNCIA

Robôs-cobra ajudam nas buscas após sismos devastadores na Venezuela

Equipa de Carnegie Mellon levou robôs-cobra para escombros venezuelanos depois de um pedido iniciado… por um chatbot de IA. A ficção científica já anda no meio dos destroços.

Robôs-cobra ajudam nas buscas após sismos devastadores na Venezuela

Os robôs-cobra de Carnegie Mellon passaram dos vídeos de laboratório para o cenário que conta: escombros reais, gente desaparecida, relógio a contar. Depois de dois sismos devastadores na Venezuela, que causaram mais de 5.000 mortos e quase 17.000 feridos, estas máquinas articuladas foram usadas para procurar sobreviventes em edifícios colapsados.

O conceito é simples e ao mesmo tempo tecnicamente exigente. Cada robô tem cerca de 1,2 metros de comprimento, é modular, composto por segmentos que se trocam e reparam com relativa facilidade, e leva na “cabeça” uma câmara de vídeo. Um operador humano controla o deslocamento com um comando de videojogos ligado a um portátil, mas não anda ali a microgerir cada junta, porque algoritmos de controlo coordenam automaticamente os segmentos para o movimento certo entre o ponto A e o ponto B. A utilidade em contexto de busca e salvamento é óbvia: conseguem esgueirar-se para volumes compactados onde nem humanos nem maquinaria convencional chegam, prolongando a visão das equipas sem as pôr em risco adicional.

Howie Choset, responsável pelo Biorobotics Lab da Carnegie Mellon, descreve o processo como “fazer cirurgia minimamente invasiva a uma estrutura com um robô-cobra”. A comparação é feliz, e não é acidental. A equipa passa há quase duas décadas a explorar estas formas de locomoção para arqueologia, operação subaquática e até cirurgia real. O uso em catástrofes já tinha sido ensaiado em 2017, no sismo da Cidade do México, mas a operação na Venezuela é muito mais exposta mediaticamente e mostra bem o que a chamada IA física pode significar fora da teoria, numa linha que não é muito diferente da aposta de gigantes como a Samsung na robótica aplicada a contextos reais, da fábrica ao acidente de via pública, como se viu na recente criação da divisão de robótica focada em IA física.

O mais curioso é como esta missão começou. Beatriz Gonzalez, venezuelana a viver em Atlanta, perguntou ao chatbot de IA Grok como podia ajudar as operações de busca no seu país. A resposta não foi uma banalidade vaga, foi um link para um artigo de Carnegie Mellon sobre o uso destes robôs no México. Gonzalez pegou no telefone, falou com o laboratório, e em poucos dias os investigadores estavam a cancelar demonstrações num concerto em Pittsburgh, a trocar câmaras avariadas, a enfiar baterias extra nas malas e a tentar arranjar um jato privado em Miami para contornar restrições do governo venezuelano. A ponte entre IA generativa, vontade humana e hardware altamente especializado ficou ali desenhada em poucas horas.

Há aqui duas leituras que interessam para quem olha de fora. Primeiro, a tecnologia está claramente pronta o suficiente para deixar de ser demo permanente e entrar em cenários de desastre reais. Estes robôs não estão a substituir equipas caninas nem sensores sísmicos, estão a acrescentar uma camada muito específica: visão remota em espaços impossíveis. Segundo, o gargalo já não é só técnico. É logístico, político, financeiro. Mesmo com vontade, foi preciso uma espécie de operação relâmpago para meter três robôs e uma equipa em campo, com direito a proprietários de jatos a recuar perante burocracia e risco.

Para Portugal, onde também se fala ciclicamente de preparação sísmica mas se discute pouco robótica de intervenção, este caso deixa uma pergunta prática: quem é que, no dia em que for preciso, tem estes sistemas prontos, treinados e enquadrados em protocolos com Proteção Civil, bombeiros e forças de segurança. Porque o drama da Venezuela mostra que os robôs-cobra já rastejam nos escombros, mas ainda não há muita estrutura à volta para que sejam mais do que um acto de boa vontade tecnicamente sofisticado.

Fonte: Ars Technica

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