França e Alemanha querem um Palantir europeu para a guerra algorítmica
Paris e Berlim assumem que depender de software militar americano é um luxo geopolítico. Agora prometem um “backbone digital soberano” europeu centrado em IA, dados e cloud.
Paris e Berlim assumem que depender de software militar americano é um luxo geopolítico. Agora prometem um “backbone digital soberano” europeu centrado em IA, dados e cloud.
Quando um comandante da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) diz em público que não há alternativa europeia séria ao software militar da Palantir, algo está desalinhado com o discurso de “soberania digital” em Bruxelas. França e Alemanha acabam de admitir isso por escrito e prometem construir o seu próprio rival europeu ao software de IA militar da empresa americana.
Após uma reunião entre Emmanuel Macron e Friedrich Merz, os dois países assinaram uma declaração conjunta para estudar um “backbone digital soberano europeu” focado em segurança centrada em dados, IA e soluções cloud. Na prática, falamos de plataformas de comando e controlo que ingerem dados de satélites, drones, sensores no terreno e relatórios humanos e os transformam em mapas, alvos e decisões assistidas por algoritmo. O modelo francês já tem nome: Arcadia, uma plataforma de comando e controlo suportada por IA, é o ponto de partida, a que se juntam “soluções alemãs comparáveis” ainda não detalhadas.
Este volte-face não nasce do nada. Tanto os serviços de informação franceses (DGSI) como os alemães (BfV) decidiram deixar de usar Palantir e migrar para a francesa ChapsVision, em concreto para o software ArgonOS. A Bundeswehr, as forças armadas alemãs, foi mais longe e excluiu a Palantir do concurso para a sua cloud de defesa. Tudo isto enquanto a NATO continua a usar software da empresa, como o Maven, para processar dados de campo de batalha. A mensagem de Paris e Berlim é clara: se a aliança precisa deste tipo de ferramenta, a Europa não pode ficar eternamente a alugar o cérebro digital a Silicon Valley. Para quem acompanha propostas como a da NestAI para ser um “sistema operativo de IA” dos exércitos europeus, isto soa a validação política do problema, mas não ainda da solução.
A declaração não se fica pelo software. Cobre também mísseis, tanques e espaço. França, Alemanha e Reino Unido querem estudar cooperação em armas de longo alcance com cerca de 2.500 km de alcance, tirando partido da ArianeGroup. O programa franco-alemão MGCS, que deverá substituir os Leopard 2 e Leclerc, vai arrancar com investigação em condução autónoma, sensores e redes de campo de batalha. Curiosamente, o muito falado FCAS, o caça europeu de próxima geração, ficou de fora, trocado por uma ideia mais pragmática: um “padrão europeu de combate colaborativo” que permita a caças e drones de diferentes países falar entre si em plena operação.
Do lado da Palantir, a reacção foi a do costume. O CEO Alex Karp descreveu a recusa alemã em sequer considerar a empresa como “conversas sobre bruxaria”, lembrando que o seu software é usado em praticamente todos os teatros de guerra relevantes. É difícil contestar a eficácia técnica num sector onde a Palantir teve uma década de avanço. Mas a questão europeia já não é técnica, é política: quer mesmo que a infraestrutura militar mais sensível dependa de uma empresa americana, sujeita a legislação e ciclos eleitorais que não controla? A resposta de Paris e Berlim é não. A parte menos glamorosa vem agora: transformar comunicados em código, interoperabilidade e deployments reais.
Para Portugal e restantes países da UE, isto tanto pode significar acesso futuro a ferramentas de comando e controlo com selo europeu, como mais fragmentação se cada capital decidir puxar a manta para o seu lado. A Europa tem histórico de grandes programas de defesa que se arrastam durante décadas e estouram orçamentos. Se este “backbone digital soberano” seguir o mesmo guião que muitos tanques e caças antes dele, a NATO vai continuar a depender da Palantir enquanto os documentos em Bruxelas acumulam pó. Soberania digital conta, mas não existe sem software a correr em campo de batalha.
Fonte: The Next Web
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