Airbus leva 70 apps críticas da AWS para a Scaleway em nome da UE
O fabricante europeu começa a tirar workloads sensíveis da nuvem americana e entrega-os a um fornecedor francês. Digital soberano, sim, mas com muitos asteriscos técnicos.
O fabricante europeu começa a tirar workloads sensíveis da nuvem americana e entrega-os a um fornecedor francês. Digital soberano, sim, mas com muitos asteriscos técnicos.
A Airbus começou a fazer aquilo que muitos decisores europeus andam a pregar há anos: tirar aplicações críticas da nuvem americana e pô-las num fornecedor europeu. Cerca de 70 aplicações sensíveis que estavam em AWS vão migrar para a francesa Scaleway, num movimento que deve cobrir no total 900 aplicações “mantidas sob controlo europeu”, como o próprio grupo já tinha sinalizado no final de 2025.
As primeiras a saltar incluem clássicos de backoffice pesado: ERP, sistemas de execução de fabrico, CRM e gestão de ciclo de vida de produto. Ou seja, não são micro-serviços de teste, são peças de base da operação industrial e de defesa. Catherine Jestin, responsável digital da Airbus, diz que a escolha da Scaleway foi “uma combinação de resposta técnica forte e proposta comercial competitiva face à nuvem pública dos hyperscalers”. Traduzindo: a oferta francesa não é só bandeira azul com estrelas amarelas, também conta na folha de Excel.
O contexto é menos marketing e mais geopolítica. Com o Cloud Act a permitir que o governo americano peça dados guardados em centros de dados fora dos EUA desde que pertençam a empresas americanas, a conversa de “dados sob controlo europeu” deixou de ser teórica. A reeleição de Donald Trump e o aumento da tensão económica entre EUA e Europa só empurraram mais petrolina para esta fogueira. Para um grupo que lida com defesa, aviação comercial e cadeias de fornecimento críticas, depender de infra-estrutura sujeita a leis extraterritoriais dos EUA é um risco que deixa de ser aceitável.
Do lado técnico, a decisão não é trivial. Os fornecedores europeus não têm a escala de AWS, Azure ou Google Cloud, em serviços, regiões ou força bruta. Foi a própria Airbus a admitir no ano passado que não havia garantia de encontrar um parceiro capaz de aguentar estes workloads sensíveis. A Scaleway tenta compensar a diferença de músculo com proximidade e alinhamento: comprometeu-se a envolver a Airbus na definição da sua futura roadmap de produto. Basicamente, a Airbus não é apenas cliente, passa a ter mão no desenho da plataforma onde corre.
Isto não significa um divórcio da AWS. A Airbus vai continuar a usar a nuvem de Seattle para a Skywise, a sua plataforma de dados de aviação, e para o Case Management Assistant que trata dúvidas técnicas dos clientes. O recado é claro: para workloads ultra-sensíveis, Europa; para plataformas globais de dados e serviços menos delicados, continua a reinar o modelo clássico de hyperscaler americano. É uma soberania selectiva, não um corte radical.
Para quem está em Portugal, isto é mais do que uma curiosidade franco-alemã. Bancos, telecoms, hospitais e até o Estado jogam no mesmo tabuleiro regulatório, com RGPD e leis de contratação pública a empurrar para soluções “de confiança” europeias, ao mesmo tempo que as equipas técnicas sabem que duplicar todos os serviços de AWS ou Azure em fornecedores regionais é fantasia cara. A Airbus mostra uma via intermédia: identificar o que é mesmo “Minimum Viable Company” e tirar isso da esfera legal americana. Se esta abordagem funcionar a sério em escala industrial, as escapatórias do tipo “é só mais um S3 para backups” vão começar a parecer preguiça estratégica, não necessidade técnica.
Fonte: The Register
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