O Japão está a montar uma fábrica de IA de 140 MW só para robôs e gémeos digitais, e a chave do quadro eléctrico é da Nvidia. O projecto nasce em torno da Noetra Corp, um consórcio privado onde mandam SoftBank, NEC, Sony Group e Honda. O Estado japonês aparece a montante, com cheques grandes e muitos asteriscos, mas quem compra e opera o ferro é o privado.
A configuração é tudo menos vaga: 13.750 CPUs Nvidia Vera e 27.500 GPUs Rubin, distribuídas em racks Vera Rubin NVL72, com rede Spectrum-X Ethernet e DPUs BlueField, sobre a plataforma DSX da marca. Mais do que mais um “supercomputador de IA”, a Nvidia vende isto como a primeira infraestrutura nacional de IA para IA física. Em bom português, modelos multimodais treinados para controlar robots, braços industriais, veículos e gémeos digitais de fábricas inteiras.
Do lado político, o enquadramento chama-se FRONTia Project, nome completo “Development of Multimodal Foundation Models with a View to AI Robotics and Physical AI”. É encomendado pelos ministérios METI e NEDO, em parceria com o AIST, o instituto público de investigação. O governo compromete-se com “até” 1 bilião de ienes, cerca de 6 mil milhões de dólares, entre 2026 e 2030, financiados em parte por obrigações de transição da economia japonesa. Só que o “até” é literal: só os primeiros dois anos, 387,3 mil milhões de ienes, estão blindados, o resto depende de revisões anuais. Teto não é garantia.
Há aqui uma linha interessante: ao contrário de compras públicas clássicas, não é Tóquio a comprar directamente o data center, é a Noetra a montá-lo e a Nvidia a “trabalhar com” a Noetra. O comunicado não traz um único número sobre o valor do contrato, nem preço por GPU, nem CAPEX total. Fica claro quem fornece a tecnologia, fica muito menos claro quem fica com o risco de ter um monstro de 140 MW para alimentar e amortizar, num contexto em que a pressão ambiental sobre centros de dados de IA está a subir, como se viu quando a Microsoft admitiu o salto nas emissões por causa da IA.
Jensen Huang puxou da cassete habitual, a da “próxima revolução industrial” e da ideia de que “o Japão inventou a manufactura moderna” e agora constrói “fábricas de IA”. Não é só retórica: com praticamente todo o stack fornecido pela Nvidia, de chips a rede, o país fica ainda mais preso a um único fornecedor num sector já altamente concentrado. O argumento da Noetra é que “nenhuma empresa sozinha” consegue pagar nem operar esta escala de computação. O subtexto é simples: ou se faz pooling sob forma de consórcio, ou o Japão arrisca perder o comboio dos modelos de IA aplicados à robótica.
Para quem lê a partir da Europa, isto não é apenas exotismo nipónico. A combinação de dinheiro público em volumes de vários mil milhões com infraestruturas privadas de IA pesada começa a replicar-se, das nuvens soberanas europeias a projectos militares como o NestAI para exércitos europeus. O Japão decidiu concentrar essa aposta num único bloco e num único fornecedor. Se correr bem, ganha uma base industrial de robótica de IA difícil de apanhar. Se correr mal, fica com uma factura energética bruta e um monumento muito caro à febre dos modelos fundacionais.
Fonte: The Next Web
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