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NestAI quer ser o sistema operativo de IA dos exércitos europeus

Finlândia e Estónia ligam-se a um laboratório de IA quase desconhecido para testar um “OS” militar aberto e soberano. A tecnologia interessa, mas o poder sobre ela interessa mais.

NestAI quer ser o sistema operativo de IA dos exércitos europeus

No fim de junho, Finlândia e Estónia assinaram um papel que, formalmente, não obriga ninguém a gastar 1€. Chama-se carta de intenções, não tem linha de orçamento, mas diz quem vai mandar no software de campo de batalha que vem aí.

O documento junta o Centro de Excelência de IA das Forças de Defesa finlandesas ao Comando de Transformação das Forças de Defesa estónias, com a NestAI como parceiro industrial. A empresa é um laboratório de IA de Helsínquia fundado em 2025, com perto de 200 engenheiros e cientistas, financiado com 100 milhões de euros pela Nokia e pela Tesi, o braço de investimento do Estado finlandês. Para algo com menos de dois anos, isto é mais sério do que muitos programas formais da NATO.

O produto-chave chama-se NestOS. A proposta é simples de ler, rara neste sector: uma camada de sistema operativo para veículos não tripulados e sistemas de comando e controlo, baseada em arquitecturas abertas e modulares, desenhada para continuar a aprender depois de ser instalada em campo. Nada de “modelo congelado na entrega” como tanto contrato militar clássico. Aqui o objectivo é que o software evolua com a força que o usa.

Peter Sarlin, chairman executivo da NestAI, resume o argumento político: as forças europeias precisam de sistemas de IA que funcionem em conjunto entre países e continuem a aprender, mas cuja evolução de capacidades fique “nas mãos das nações que operam os sistemas”. Ou seja: dados soberanos, roadmap soberano, zero dependência estratégica de um fornecedor único. Depois de três anos a perceber o custo de depender de infra-estruturas críticas em nuvens norte-americanas, a Europa está a tentar não repetir o erro na vertente militar.

A carta de intenções abre frentes em três áreas: IA adaptativa e de aprendizagem contínua, apoio à decisão em comando e controlo, e sistemas autónomos e não tripulados. Primeiro vêm pilotos concretos, com foco definido e avaliação séria antes de se falar em expansão. A ambição declarada é puxar mais centros de excelência e parceiros industriais de outros países para este modelo. Aqui a palavra-chave é hábito: usar NestOS, partilhar doutrina, treinar em conjunto. A compra de licenças e hardware vem depois, quase por inércia.

Para Portugal, isto é um aviso e uma janela. A NATO continua a ser o chapéu, mas começa a desenhar-se um “Linux da defesa” com sotaque nórdico, feito para reduzir dependência de gigantes de IA comerciais. Se esta camada de IA abrir caminho e se tornar standard de facto em veículos e sistemas europeus, quem ficar de fora arrisca-se a ser apenas mais um cliente de software militar fechado, a jogar por regras escritas noutro lado. Na corrida para pôr IA em tudo o que mexe no campo de batalha, o detalhe não é o algoritmo. É quem tem a chave de actualização.

Fonte: The Next Web

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