Starship leva Starlink V3 a teste e aproxima-se da órbita
O 13.º voo de teste do foguetão gigante da SpaceX estreia satélites Starlink V3 funcionais e ensaia, sob mais pressão, o passo que falta antes de uma missão realmente orbital.
O 13.º voo de teste do foguetão gigante da SpaceX estreia satélites Starlink V3 funcionais e ensaia, sob mais pressão, o passo que falta antes de uma missão realmente orbital.
A SpaceX prepara o 13.º voo de teste do Starship ainda esta semana, com janela a abrir às 22h45 de quinta-feira, hora de Lisboa. À primeira vista é mais um salto suborbital desde a Starbase, no Texas, a mergulhar no Índico. Na prática, é o ensaio geral do modelo de negócio que justifica o investimento neste foguetão: despejar grandes carregamentos de Starlink em órbita baixa a um custo marginal.
Pela primeira vez, o Starship vai levantar voo com 20 satélites Starlink V3 reais no porão. Não são blocos de metal a fingir carga útil, são unidades completas montadas num sistema de polias e cabos que as liberta uma a uma por uma abertura lateral. Estes 20 satélites não entram na constelação operacional, mas vão tentar algo mais interessante: estabelecer por breves instantes ligações laser com outros Starlink já em órbita para validar a interoperabilidade entre gerações. Se essa parte correr bem, a SpaceX prova que consegue misturar V3 com a frota actual sem partir a rede.
O perfil de voo mantém a receita das tentativas anteriores. Cerca de 120 metros de aço inoxidável e 33 motores Raptor saem do Texas, fazem uma trajectória suborbital que atravessa meio mundo e terminam com amaragem controlada do veículo principal a noroeste da Austrália. Os 20 satélites acabam queimados na reentrada. Durante a cerca de uma hora que passam no espaço, têm tempo para abrir painéis solares e antenas e falar com estações em terra na África do Sul. É um teste técnico mascarado de demonstração comercial: a SpaceX não quer só mostrar que o foguetão aguenta, quer mostrar que o combo Starship+Starlink aumenta de facto a capacidade da rede.
Há ainda um detalhe menos glamoroso mas crítico. Alguns dos Starlink V3 levam câmaras viradas para o escudo térmico do Starship. Vão filmar o revestimento durante o voo e enviar as imagens para que os engenheiros possam avaliar, com mais rigor do que fotos tremidas de telemóvel na plataforma, se o escudo está pronto para voos com regresso ao local de lançamento. Na missão anterior já tinham voado maquetas com câmaras externas, agora são seis unidades com esse papel. É telemetria visual ao serviço de um objectivo simples: conseguir que o Starship descole e volte à mesma base, de forma rotineira, em vez de se afogar no Índico.
Onde isto começa a tocar o resto da indústria, incluindo o mercado europeu que anda a contar tostões com Ariane 6 e micro-lançadores, é na escala. Um Starship cheio poderá levar cerca de 60 Starlink V3 de uma vez. A própria SpaceX quantifica o aumento: cada lançamento Falcon 9 com V2 soma cerca de 2,6 Tbps à constelação, um Starship carregado de V3 empurra os números para 60 Tbps. Se este modelo ficar maduro, os pequenos foguetões de nicho discutidos quando falámos do adeus silencioso ao Pegasus ficam ainda mais apertados. Compete-se com flexibilidade e serviço, não com preço por quilo em órbita.
Falha um pouco a narrativa oficial quando se fala em Marte e no programa Artemis da NASA como destino natural do Starship. No curto prazo, o verdadeiro cliente é a própria SpaceX e a sua constelação. As missões lunares e os “data centers” em órbita são o cartaz, o negócio é vender largura de banda do céu. Se o voo desta semana se aproximar de perfeito, o próximo passo lógico é a órbita completa e, a seguir, lançamentos comerciais a sério. Quando isso acontecer, quem depende de foguetões mais pequenos e caros vai sentir a diferença muito antes de qualquer astronauta pôr um pé no pó do polo sul lunar.
Fonte: Ars Technica
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