Índia dá luz verde à Vivo e abre novo capítulo na produção móvel
Nova joint-venture entre a chinesa Vivo e a indiana Dixon mostra como Nova Deli quer repetir o modelo Apple, mas com capital chinês sob controlo local.
Nova joint-venture entre a chinesa Vivo e a indiana Dixon mostra como Nova Deli quer repetir o modelo Apple, mas com capital chinês sob controlo local.
A Índia aprovou uma joint-venture de fabrico entre a chinesa Vivo e a indiana Dixon Technologies. No papel é “só” mais uma fábrica de smartphones. Na prática é a confirmação de que Nova Deli quer que o boom iniciado com a Apple se torne uma política industrial duradoura, agora também com marcas chinesas, mas sob maioria de capital indiano.
O negócio, anunciado em 2024 e agora desbloqueado após meses de escrutínio, encaixa nas regras impostas em 2020 para investimentos vindos de países que partilham fronteira terrestre com a Índia, leia-se sobretudo a China. A nova empresa será detida em 51% pela Dixon e 49% pela Vivo. Vai comprar ativos industriais à própria Vivo, produzir parte dos smartphones da marca no país e ainda poder fabricar electrónica para outros nomes. É produção contratada com sotaque político: controlo formal indiano para acalmar o governo, presença tecnológica chinesa para não perder escala.
Este modelo não aparece no vazio. A Índia passou de montagem periférica a centro global de fabrico de smartphones depois de a Apple ter começado a deslocar produção do iPhone para lá, num movimento de diversificação da cadeia de fornecimento face à China. Incentivos públicos agressivos fizeram o resto, atraindo fornecedores como a Foxconn e grupos locais como a Tata. Hoje, a Apple representa 57% das exportações de smartphones da Índia em volume, segundo a Counterpoint Research. As marcas chinesas dominam as vendas internas, com 72% de quota, mas quase não contam nas exportações, com menos de 10%.
É esse desequilíbrio que esta joint-venture tenta corrigir. Para a Índia, fábricas que apenas abastecem o mercado doméstico valem menos do que linhas focadas em exportação, que geram divisas e poder geopolítico. Para a Vivo, aceitar ser minoritária numa unidade industrial é o preço de continuar a crescer no segundo maior mercado de smartphones do mundo e de reduzir a fricção com reguladores que já a investigaram por questões fiscais. O mesmo aconteceu a Oppo e Xiaomi. Depois de anos de tensão, tax audits e ativos congelados, ceder controlo legal a parceiros locais deixou de ser humilhação e passou a ser estratégia de sobrevivência.
Para a Dixon, maior empresa indiana de serviços de fabrico electrónico, o ganho é aritmético: o CEO fala em 20 a 22 milhões de smartphones extra por ano só com a Vivo. Para um grupo cotado em bolsa que vive de contratos de volume, é o tipo de salto que reescreve projeções de crescimento. É também um sinal para outros fabricantes chineses que procuram uma forma de entrar no programa indiano de incentivos sem esbarrarem em barreiras políticas. O desenho 51/49 arrisca tornar-se o molde oficioso para quase tudo o que envolva capital chinês e linhas de montagem na Índia.
Visto de Lisboa, isto ainda parece distante. Mas não é. A mesma Índia que corta taxas a baterias e ecrãs para caçar fábricas de telemóveis, como já detalhámos na Pixel, está a consolidar um cluster industrial que começa nos incentivos fiscais e acaba na arquitectura accionista das fábricas. Enquanto a Europa debate metas de reindustrialização e fala de “autonomia estratégica”, Nova Deli define percentagens de capital e fecha contratos concretos. Quem comprar um Android de gama média em Portugal daqui a dois anos pode muito bem ter na mão um Vivo montado nesta nova linha. A etiqueta dirá “Made in India”. A história por trás é substancialmente mais carregada de geopolítica do que parece.
Fonte: TechCrunch
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