Kobo barra quase metade dos livros indie, com a mira na IA
A plataforma de autoedição da Rakuten Kobo rejeitou 45% dos manuscritos em 2025. Mais de 80% dessas recusas foram para textos claramente gerados por IA e de qualidade duvidosa.
A plataforma de autoedição da Rakuten Kobo rejeitou 45% dos manuscritos em 2025. Mais de 80% dessas recusas foram para textos claramente gerados por IA e de qualidade duvidosa.
Uma plataforma de autoedição existe para dizer que sim. Em 2025, a Kobo passou o ano a carregar no não. Segundo o CEO Michael Tamblyn, a Rakuten Kobo rejeitou 45% dos títulos submetidos ao Kobo Writing Life, o serviço de publicação independente da marca. E mais de 80% dessas recusas foram para manuscritos “manifestamente” gerados por IA e de qualidade muito baixa.
Os números chegaram primeiro numa keynote de Tamblyn na conferência CONTEC, em Buenos Aires, em abril, e foram depois repetidos numa publicação no Threads em maio. Falou em “mangueira de incêndio” de textos maquínicos. Manuscritos que há dois anos mal seriam uma curiosidade e hoje enchem a pilha de rejeitados. Estamos a falar de centenas de milhares de ficheiros descartados, um volume que torna visível algo que muita gente no meio já suspeitava: a autoedição está a ser usada como escoadouro de texto industrializado.
Convém, no entanto, ler as percentagens com cuidado. Os 45% referem-se à fatia de submissões rejeitadas, não à proporção de todos os livros submetidos que seriam escritos por IA. E o “mais de 80%” só se aplica dentro desse conjunto de recusas. A Kobo não publicou o número total de ficheiros avaliados, nem o detalhe dos motivos de rejeição, nem o método exato para concluir que um manuscrito é “gerado por máquina”. Mais do que uma medição rigorosa da quota da IA na autoedição, isto é uma declaração de postura.
Essa nuance é crítica porque a deteção é o elo fraco. O próprio Tamblyn admite que as ferramentas de deteção de IA testadas pela Kobo se enganam com facilidade, tanto a marcar texto humano como maquínico, como o contrário. Por isso a empresa prefere usar um critério prático: qualidade. Se um “livro” soa a conteúdo barato e massificado, é rejeitado, venha de um modelo generativo ou de um humano a tentar imitar. As regras atualizadas em maio são explícitas: estão na lista negra títulos demasiado curtos, conteúdo gerado total ou parcialmente por IA, más traduções e preços considerados excessivos.
Há aqui um paradoxo curioso. A Kobo promete que não usa os livros submetidos para treinar sistemas de IA generativa, mas reserva para si o direito de usar IA para ler e analisar esses mesmos textos na triagem. A lógica é defensiva. Protege o catálogo e a marca, tenta evitar que a loja se torne uma lixeira de “workslop” automatizado, o mesmo tipo de lama que já inunda resultados de pesquisa, redes sociais e até algumas notícias. O problema é que ninguém fora da Kobo sabe quantos livros genuínos, escritos por autores independentes honestos, ficaram pelo caminho apanhados na rede grossa desta filtragem.
Amazon e Kobo estão, no fundo, a atacar o mesmo incêndio com extintores diferentes. A Kindle Direct Publishing da Amazon obriga, desde 2023, à declaração de texto, imagens ou traduções gerados por IA no momento do upload, mas permite trabalho “assistido por IA” sem rótulo. A Kobo prefere não confiar na boa-fé do autor e corta logo à entrada. Para escritores portugueses que usam estas plataformas para chegar a leitores fora do espaço lusófono, isto significa navegar entre suspeição algorítmica e burocracia de declaração. O mercado está a reagir à enxurrada de texto sintético à força de fricção. O risco é simples: matar ervas daninhas à foice, com alguns bons livros a ir atrás.
Fonte: The Next Web
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