Bastidores do braço-de-ferro entre Trump e a Anthropic por Mythos 5
Export controls, telefonemas de emergência e um fim‑de‑semana passado em Washington: o que se passou afinal para o governo dos EUA travar o lançamento do Claude Mythos 5 e Fable 5.
Export controls, telefonemas de emergência e um fim‑de‑semana passado em Washington: o que se passou afinal para o governo dos EUA travar o lançamento do Claude Mythos 5 e Fable 5.
Enquanto os Estados Unidos festejavam o primeiro Mundial de futebol e o título dos New York Knicks, a Anthropic passou o fim‑de‑semana a tentar salvar os seus modelos mais avançados. Às 17h21 de sexta‑feira em Washington, a empresa recebeu uma ordem de controlo de exportações que obrigava a suspender o acesso aos modelos Claude Mythos 5 e Fable 5 por “qualquer estrangeiro”, dentro ou fora do país, incluindo funcionários da própria Anthropic que não fossem cidadãos norte‑americanos. Traduzido em engenharia: desligar tudo.
A ordem caiu em cima de uma semana de hype intenso em torno dos novos modelos, que tinham sido apresentados como a próxima grande arma da Anthropic na corrida com OpenAI, Google e companhia. Mythos 5 e Fable 5 partem da mesma base técnica do Mythos Preview, o modelo que a própria empresa tinha classificado como demasiado perigoso para ser aberto ao público. Segundo a Anthropic, o risco de uso para ciberataques era elevado. A ironia é óbvia: esses avisos, que funcionaram como marketing de risco elevado, acabaram a ser usados pelo governo como munição política para apertar o travão.
Na prática, Mythos 5 estava reservado a agências governamentais e a algumas empresas com condições especiais, enquanto Fable 5, com mais salvaguardas e filtros, era o modelo “seguro para uso geral”. A lógica era clara: um modelo de topo para poucos, outro afinado para o resto do mercado. Mas bastou um relatório sugerir que as tais barreiras de segurança podiam falhar para a narrativa se virar. O que a Anthropic tinha vendido como prudência passou a ser lido em Washington como prova de perigo real. E assim nasceu o cenário de emergência que já tínhamos descrito quando Trump ordenou o desligar de Fable 5 e Mythos 5, agora com muito mais detalhe de bastidores.
Fontes que estiveram nas negociações contaram ao The Verge que a administração Trump ligou à Anthropic por volta da uma da tarde de sexta‑feira, dando 90 minutos para cortar o acesso aos dois modelos. Caso contrário, a máquina de controlo de exportações do Departamento de Comércio seria acionada em força. Quinze minutos depois do primeiro telefonema, a Anthropic já estava em linha com a Casa Branca. Pouco mais de uma hora depois, o CEO Dario Amodei falava diretamente com o secretário do Tesouro, com o secretário do Comércio e com responsáveis de cibersegurança nacional numa espécie de cimeira relâmpago por teleconferência.
A disputa não é só sobre se Mythos 5 e Fable 5 são perigosos, é sobre quem decide o que é “demasiado poderoso” e com base em quê. Há um detalhe que interessa a quem olha disto da Europa: os EUA estão a usar regras de exportação, pensadas para chips e armas, para controlar software de IA. Isto significa que, se o modelo for classificado como sensível, tanto uma empresa portuguesa numa cloud norte‑americana como uma startup em Berlim podem ficar sem acesso de um dia para o outro, sem direito a grande discussão pública. O nosso enquadramento regulatório na UE é mais transparente, mas muito mais lento.
Para já, a Anthropic tenta convencer Washington de que Fable 5 não devia ser metido no mesmo saco que Mythos 5 e que o modelo “público” é suficientemente domesticado. Do lado político, a linha é outra: se até a própria empresa admitiu que a base tecnológica era demasiado perigosa, porque razão se deve acreditar agora que os filtros chegam. No fundo, este episódio mostra que o discurso de medo usado pelos laboratórios para ganhar relevância e influência tem um preço. Quando o Estado decide levar essas narrativas à letra, a torneira fecha. E não é só para a China, é para toda a gente.
Fonte: The Verge
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