Por que o próximo iPhone vai mesmo ficar mais caro
A culpa não é só da Apple. A memória RAM disparou de preço e o negócio global dos chips está a rebentar pelas costuras.
A culpa não é só da Apple. A memória RAM disparou de preço e o negócio global dos chips está a rebentar pelas costuras.
Quando a Apple subir o preço dos próximos iPhones esta semana, não é só margem de lucro a esticar. É o efeito visível de algo bem menos sexy: a memória RAM ficou brutalmente mais cara e arrasta consigo todo o mercado de eletrónica.
Durante décadas, a regra era simples. Todos os anos tinhas mais memória pelo mesmo preço ou até menos. Agora, fala-se em “chipflation” e “RAMageddon” sem ironia. Segundo a AlphaSense, as expressões “preço da memória” e “escassez de memória” apareceram em 473 conferências de resultados no último trimestre. Se quase todas as grandes tecnológicas andam obcecadas com o mesmo tema, não é histeria coletiva, é um gargalo estrutural.
A narrativa fácil é culpar a IA generativa por tudo, dos cortes de postos de trabalho às faturas de eletricidade, passando pelos preços dos smartphones e consolas. Mas a verdade é que o problema começou antes de o ChatGPT virar palavra do dia. Os fabricantes de memória passaram anos a espremer mais chips por wafer, progressivamente, até a curva começar a achatar. Em 2021, em plena febre de compras da pandemia, a Micron concluiu o óbvio incómodo: o truque tecnológico já não chegava. Para acompanhar a procura a sério, era preciso processar muito mais wafers, ou seja, construir fábricas novas, gigantescas e caríssimas.
O timing foi péssimo. Logo a seguir, o mercado de PCs, tablets e telemóveis caiu de joelhos. O consumo tinha sido “puxado para a frente” durante os confinamentos, o dinheiro começou a apertar, e os fabricantes ficaram sentados em cima de inventário. Perderam dinheiro, cortaram produção, adiaram investimentos. Quando a recuperação finalmente apareceu, trouxe de boleia a moda da IA generativa, com uma fome de RAM para servidores e GPUs que ninguém tinha planeado. De repente, os mesmos poucos fabricantes tinham de decidir se a capacidade limitada ia para centros de dados de IA ou para o teu próximo telemóvel.
A concentração não ajuda. Três empresas controlam cerca de 90 por cento do mercado global de memória: Samsung, SK Hynix e Micron. Isto dá-lhes poder para gerir a torneira e também as deixa vulneráveis a qualquer erro de cálculo. Se apostam demasiado em chips de alto débito para IA, sobra menos linha para DRAM “normal” de smartphones e consolas. Se investem pouco em novas fábricas, os preços disparam quando a procura volta em força. Para quem está em Portugal, o resultado é simples: iPhones, Android topo de gama, portáteis de gaming ou até máquinas como a Steam Deck, que já andam a ser reavaliadas com os preços em alta, ficam mais caros ou cortam em especificações de memória.
Para o consumidor, pouco importa se a Micron acha que “é preciso construir mais capacidade de wafers” ou se a Samsung decide onde encaixa a próxima fábrica. O que interessa é que a velha ideia de que a tecnologia fica sempre mais acessível ano após ano está, neste momento, suspensa. A inflação da RAM não vai desaparecer numa atualização de firmware e os próximos ciclos de iPhone e companhia vão refletir isso na etiqueta. Quem ainda acha que pagar mais 200€ por um topo de gama é só ganância da marca anda a olhar para o sítio errado do chip.
Fonte: The Verge
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