CIêNCIA

O jato silencioso da NASA entra na fase decisiva para fintar a barreira do som

O jacto experimental já voa a Mach 1,2. Agora vem o teste que decide se o ‘boom’ vira apenas um ‘thump’ aceitável para voar sobre cidades.

O jato silencioso da NASA entra na fase decisiva para fintar a barreira do som

Depois de décadas a tratar voos supersónicos sobre terra como um pecado acústico, a NASA está perto de tentar reescrever a regra. O X-59, o jacto experimental “silencioso” da agência, já completou 25 voos de ensaio e prepara-se para a fase decisiva: medir, com rigor, se o estrondo supersónico consegue mesmo encolher para um simples “pancada” controlada.

No voo mais recente, a 21 de agosto, o X-59 descolou do Armstrong Flight Research Center, na Califórnia, ficou 72 minutos no ar, subiu até cerca de 14 km de altitude e atingiu Mach 1,2. Sempre acompanhado por um caça F-15 da NASA que, ironicamente, faz mais barulho do que o próprio protótipo que está a ser protegido. Até agora, estes voos serviram para validar desempenho básico, estabilidade e sistemas de controlo. Nada de vibrações estranhas, nada de sustos aerodinâmicos, só alguns ajustes de software para impedir que pequenos alertas fossem tratados como avisos sérios.

O objetivo do X-59 é frontal: partir a barreira do som sem produzir o clássico “boom” que treme janelas e irrita meio país. Em junho, o avião já tinha passado Mach 1,1, perto de 1.150 km/h, mostrando que a parte de ir depressa está controlada. O que interessa agora é saber se o perfil afiado da fuselagem e o motor montado no topo reduzem mesmo o salto de pressão no solo ao tal sonic thump, um estalo amortecido em vez da explosão que levou os reguladores a banir voos comerciais supersónicos sobre terra há cerca de 50 anos.

Esta fase chama-se validação acústica. Traduzindo: equipar o chão e o ar com sensores, microfones e plataformas de medição e seguir o X-59 em cruzeiro supersónico para captar, ponto a ponto, a assinatura sonora. Se os modelos da NASA estiverem certos, a pressão chega mais espalhada no tempo e no espaço, sem o pico agressivo do boom tradicional. Se estiverem errados, voltamos à estaca zero: supersónico civil continua basicamente limitado a sobrevoar oceanos. E isto é o que interessa ao leitor europeu, porque uma mudança destas acabaria inevitavelmente na mesa da EASA e das autoridades nacionais, que são as que decidem se um futuro “Concorde silencioso” pode cruzar Portugal a Mach 1,3 sem acordar meio Alentejo.

A agência fala deste momento como “o maior marco” do X-59. É mais do que auto-elogio: se a validação funcionar, as ferramentas de simulação e desenho usadas neste projeto passam a manual de instruções para qualquer fabricante que queira lançar um avião supersónico de passageiros. Abre-se espaço a novas rotas rápidas entre continentes inteiros, algo que interessa tanto à Europa como a quem anda a tentar ganhar contratos com a NASA, de que já falámos no caso da rede de telecomunicações em Marte entregue à Blue Origin. Se falhar, o X-59 entra para a história como mais um demonstrador caro que mostrou o limite da tecnologia atual.

A parte curiosa é que, para uma indústria que vive obcecada com eficiência e emissões, a discussão aqui volta a ser muito básica: ruído. Mesmo que os números acústicos batam certo, ainda falta enfrentar combustível, custos, certificação europeia e aceitação pública. Por agora, o X-59 serve como teste à pergunta que anda pendurada desde o Concorde: será que aceitamos voltar a atravessar o Atlântico em metade do tempo, desde que o céu deixe de fazer barulho de petardo?

Fonte: Gizmodo

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