Em 2019, a Nvidia lançou a Shield TV Pro como box Android premium para quem queria 4K, codecs exóticos e um pequeno servidor multimédia debaixo da televisão. Sete anos depois, o hardware é o mesmo, o processador Tegra X1+ continua a ser o mesmo, mas o preço é que não: segundo o Ars Technica, a Shield TV Pro passa hoje a custar 299,99 dólares, mais 100 dólares do que no lançamento. Tudo, diz a Nvidia, por causa da memória na era da IA.
O modelo atual da Shield chegou ao mercado por 199,99 dólares, acompanhado de uma variante não-Pro a 149,99 dólares que entretanto foi descontinuada. A Pro sobrevive, agora a roçar os ~275€ ao câmbio atual, isto para um produto lançado antes da pandemia e muito antes do boom do machine learning generativo. A justificação oficial é simples: “o custo dos componentes, incluindo memória, aumentou substancialmente em toda a indústria”, respondeu um porta-voz ao Ars.
O contexto complica a narrativa de vítima. A Nvidia é uma das grandes culpadas da pressão sobre DRAM e NAND com a corrida a GPUs para centros de dados de IA. Ganha margens gordas nos aceleradores que vende e, como efeito colateral, empurra para cima o custo de qualquer coisa que tenha chips de memória. Segundo a peça do Ars, a própria empresa admite que continua a fabricar Shield TV novas, não está a escoar stock antigo. Ou seja, cada unidade compete diretamente pelas mesmas linhas de produção e componentes que smartphones e portáteis de 2026.
Do ponto de vista de quem só quer ver Netflix, a subida é difícil de engolir. Há sticks HDMI de grandes marcas por 40 a 70€ e boxes Android TV decentes abaixo de 100€. O argumento da Shield sempre foi o extra: melhor suporte de codecs, mais atualizações e a possibilidade de servir de Plex server caseiro. O Ars Technica já tinha explorado esta faceta quando descreveu o esforço da Nvidia em manter a Shield obsessivamente atualizada. Mas a meio dos 200 e muitos euros, esse nicho encolhe ainda mais.
Há também um padrão mais amplo. Consolas como a Switch 2, Xbox e PlayStation 5 viram os preços subir depois do lançamento, em vez de descerem com a maturidade da plataforma. Como aponta o Ars, a PS5 Pro passou de 699,99 dólares em 2024 para 899,99 dólares hoje. A Shield TV encaixa na mesma lógica: hardware que envelhece, software que melhora, mas uma etiqueta que sobe porque o mercado está disposto a pagar mais pelos chips que interessam à IA, e os consumidores domésticos acabam por subsidiar o festim de data center.
Para quem está na Europa, o cenário é ainda menos simpático: entre impostos, margens locais e a falta de concorrência direta no segmento “box Android premium”, o preço poderá ficar bem acima da simples conversão de câmbio. Numa altura em que muitos optam por soluções tipo Raspberry Pi para controlar TVs e streaming sem pagar o imposto da marca, a Shield TV Pro arrisca tornar-se um símbolo curioso da era da IA: um produto antigo, tecnicamente competente, que encarece porque o resto da indústria decidiu que os seus chips valem ouro.
Fonte: Ars Technica
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