CIêNCIA

Flow traz para casa um tratamento de depressão com um preço pesado

Um capacete que estimula o cérebro promete aliviar a depressão sem comprimidos. A FDA já disse que sim, mas a conta continua longe da realidade da maioria das pessoas.

Flow traz para casa um tratamento de depressão com um preço pesado

Um capacete futurista que dispara correntes eléctricas suaves para o lobo frontal está a ser vendido nos EUA como tratamento doméstico para a depressão. Chama-se Flow, é sueco, tem aprovação da FDA norte‑americana e custa 2.200$ por 10 semanas, mais 325$ por mês depois disso, algo como ~2.000€ de entrada. Não é difícil perceber porque é que a conversa sobre saúde mental está cada vez mais misturada com a conversa sobre tecnologia e investimento.

O dispositivo usa estimulação transcraniana por corrente directa, aplicada durante 30 minutos por dia com controlo através de app. Ataca a mesma zona do cérebro que a estimulação magnética transcraniana (TMS), um tratamento já usado em clínica, mas sem obrigar o doente a deslocações diárias nem a contas de até 15.000$ por ciclo. Na prática, é a promessa da TMS encurtada para algo que se coloca na cabeça em casa, no sofá.

Os dados que convenceram a FDA vêm de um ensaio com 174 pessoas com perturbação depressiva major. Ao fim de 10 semanas, 45 por cento dos que usaram o Flow tiveram remissão dos sintomas, contra 22 por cento no grupo de controlo com dispositivo falso. Não é milagre, é um salto estatístico relevante, sobretudo porque o estudo incluiu gente com e sem antidepressivos. A mensagem da empresa é clara: isto não deita fora a farmacologia, mas pode complementar e, com supervisão médica, ajudar alguns a sair dos comprimidos.

Os efeitos secundários reportados foram relativamente benignos: irritação da pele, dores de cabeça, alguma dificuldade de concentração. Em comparação com o pacote clássico de muitos antidepressivos, de náuseas a problemas sexuais, o perfil é tentador. A questão é que trocar uma dependência química por um gadget caro também tem implicações. Em Portugal, onde o Serviço Nacional de Saúde já luta para garantir consultas de psiquiatria, a ideia de enfiar um dispositivo destes na tabela de comparticipações parece distante. E mesmo em países mais ricos, vender saúde mental em formato wearable corre o risco de transformar sofrimento clínico em segmento de mercado premium.

Na Europa, o Flow está aprovado desde 2019 e a empresa diz que mais de 65.000 pessoas já o usaram. O NHS britânico está a pilotar o capacete, o que é pelo menos um sinal de que reguladores públicos não o estão a tratar como mais uma bandolete de bem‑estar ao nível das que prometem meditação perfeita ou sono instantâneo. Mas o entusiasmo de investidores como Vinod Khosla, que vê nas abordagens não químicas o futuro do tratamento da depressão, lembra muito a forma como outros produtos de saúde de alta tecnologia foram empurrados para o mercado antes de sabermos bem em que doentes funcionam melhor, por quanto tempo e em que condições reais.

A tendência não é isolada. Da mesma forma que já se fala em fármacos desenhados por IA para “rejuvenescer” o organismo, agora surgem capacetes e bandas que prometem afinar o cérebro. O que falta quase sempre são respostas simples a perguntas básicas: quem paga, quem fica de fora e quem garante que um tratamento médico não se transforma apenas em mais um acessório caro para quem já tem acesso a tudo o resto.

Fonte: Wired

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