CIêNCIA

Ex-DeepMind criam Lego digital para domar reactores de fusão

A suíça Fusionality quer vender blocos de hardware e software para controlar plasmas nervosos. Menos romantismo de laboratório, mais indústria com catálogo e suporte.

Ex-DeepMind criam Lego digital para domar reactores de fusão

Na fusão nuclear toda a gente fala dos reactores, quase ninguém fala do software que os mantém vivos. A Fusionality nasce precisamente desse silêncio: empresas a construir sistemas de controlo do zero, a repetir 80% do trabalho, porque não existia quem vendesse peças standard que falassem a língua da fusão.

A startup está em Lausanne, foi fundada este ano por Federico Felici e Jonas Buchli, e já fechou uma ronda pre-seed de 3,7 milhões de dólares, cerca de 3,4 milhões de euros, vinda da Founderful e da Playfair. Não é dinheiro de gigaprojecto energético, é dinheiro de ferramenta B2B. A ideia é simples na forma e ambiciosa no impacto: criar um conjunto de sistemas de controlo e ambientes de simulação que qualquer empresa de fusão possa adaptar ao seu reactor, em vez de reinventar o mesmo esqueleto tecnológico em casa.

Quem já andou por laboratórios sabe que o romantismo é muito cabo improvisado e script obscuro escrito por um doutorando em 2014. Isso não escala para rede eléctrica. Os reactores de fusão que apostam no confinamento magnético, como os tokamaks e stellarators que nomes como Commonwealth Fusion Systems, Realta Fusion, Proxima Fusion ou Type One Energy estão a desenvolver, precisam de manter plasmas superquentes numa forma e densidade precisas. São decisões em fracções de segundo sobre campos magnéticos, combustível e segurança. O hardware de potência é caro, mas o verdadeiro pesadelo é o cérebro que orquestra tudo.

Felici e Buchli vêm exactamente desse mundo. Conheceram-se a ensinar sistemas de IA a controlar um tokamak experimental, com Felici na EPFL suíça e Buchli no Google DeepMind. Depois trocaram posições, mas não de obsessão: como automatizar o controlo do plasma sem entregar o reactor inteiro a uma caixa negra de machine learning. Hoje, Felici diz o óbvio que muita apresentação de PowerPoint ignora. A IA vai ter um papel importante, mas complementar. Optimiza, afina, antecipa falhas, não fica sozinha com a chave do reactor.

O plano da Fusionality é modular. Começa com um número reduzido de tecnologias, que Felici descreve como blocos tipo Lego, e alarga a oferta com o tempo. Blocos de simulação, de controlo em tempo real, de interface com o hardware específico de cada startup. O objectivo é cobrir a variedade de ingredientes que um reactor de fusão precisa para operar, sem obrigar cada equipa a ser especialista em electrónica de controlo, software crítico e física de plasmas ao mesmo tempo. A física de base é partilhada, o que muda é a engenharia à volta. Estão a tentar transformar essa física comum em produto de prateleira.

Para quem vê a energia de fusão como algo distante, isto é um sinal discreto mas relevante. Quando começam a aparecer fornecedores de nicho, catálogos de peças e serviços especializados, a indústria está a sair da fase de tese de doutoramento e a entrar na fase chata, mas necessária, da normalização. Não resolve o problema central de conseguir mais energia do que aquela que se gasta, tal como discutir dimensões ocultas no cosmos não põe volts na tomada. Mas sem este tipo de infraestrutura invisível, mesmo que o reactor ideal apareça, fica preso no laboratório.

Fonte: TechCrunch

Comentários · 0