CIêNCIA

Conseguir prever erupções vulcânicas como o tempo ainda é um sonho

Machine learning, sensores e física avançada estão a tornar os vulcões menos misteriosos. Mas passar de palpites informados para previsões tipo meteorologia é outra liga.

Conseguir prever erupções vulcânicas como o tempo ainda é um sonho

Em 1991, o Pinatubo, nas Filipinas, explodiu de forma tão violenta que o cume foi substituído por uma cratera com 2,5 km de largura. Mais de 800 pessoas morreram, sobretudo porque telhados cederam sob cinza encharcada pela chuva. O número podia ter sido dezenas de vezes maior. A diferença esteve num conjunto de cientistas que, com dados limitados e muita urgência, decidiram que era altura de evacuar.

Esse “palpite qualificado” salvou centenas de milhares de pessoas que viviam em redor do vulcão e numa grande base aérea norte‑americana. Mas não foi uma previsão ao estilo da meteorologia. Ninguém disse: “no dia 12, às X horas, começa uma erupção explosiva, com fluxos piroclásticos a descer pela vertente oeste”. O que houve foi leitura rápida de sinais sísmicos, deformação do solo, libertação de gases e conhecimento geológico da região. Um aviso crítico, mas ainda longe de ciência exata.

Trinta anos depois, a instrumentação é outra história. Rede densa de sismómetros, GPS de alta precisão, radar por satélite, fibra óptica enterrada no solo e sondagens químicas finas dos gases. Em cima disto, algoritmos de machine learning que engolem dados históricos de dezenas de vulcões e tentam encontrar padrões antes de uma erupção. A física da “canalização magmática” subterrânea está melhor descrita, com modelos numéricos a simular como o magma sobe, pressuriza, fractura rocha e, em certas condições, dispara em coluna de dezenas de quilómetros. Mas transformar tudo isto numa previsão probabilística tipo “80 % de hipótese de erupção explosiva dentro de 7 dias” continua mais ambição do que rotina.

A diferença face ao tempo é estrutural. A atmosfera está sempre “ligada”, sempre observável, com satélites a cobrir o planeta inteiro em contínuo. Um vulcão pode ficar décadas em silêncio, muitos estão pouco instrumentados e a parte interessante passa‑se quilómetros abaixo da superfície, onde não há radar nem câmaras. E cada vulcão é uma personalidade própria: reservatórios magmáticos com geometrias diferentes, composições químicas distintas, histórias eruptivas únicas. O que é sinal claro de perigo no Pinatubo pode ser apenas ruído em São Miguel ou na Islândia.

Volcanólogos mais optimistas acreditam que, com uma física mais refinada do comportamento do magma e dados suficientes, chegaremos a algo comparável à meteorologia moderna: modelos dinâmicos que simulam a evolução da erupção em tempo quase real, com margens de erro explícitas. Os cépticos lembram que só uma minoria dos ~1.300 vulcões activos tem monitorização decente, e que prever o “se” e “quando” já é duro, quanto mais o “como” detalhado de fluxos piroclásticos, caminhos da lava e cinza na atmosfera.

Para países em cintura vulcânica, como Filipinas, Indonésia, Japão ou mesmo Portugal, com os Açores em cima de uma zona tectonicamente activa, o ponto prático é simples: investir em sensores e em equipas de vigilância ainda compensa mais do que sonhar com modelos perfeitos. A meteorologia levou um século, muito cálculo e muitos satélites até chegar ao que temos hoje. A vulcanologia está a tentar fazer um salto semelhante olhando para algo que, quase por definição, prefere continuar escondido debaixo da crosta. Por agora, quem decide evacuações continua a viver entre a física, a estatística e o incómodo de saber que, mesmo com toda a tecnologia, a próxima grande erupção vai ter sempre uma boa dose de surpresa.

Fonte: Wired

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