CIêNCIA

Carros autónomos estão a forçar nova era nos testes de colisão

Robocarros sem volante prometem sestas e ecrãs reclinados, mas os reguladores estão presos a normas pensadas para condutores direitos como um pião. A segurança vai ter de ser redesenhada.

Carros autónomos estão a forçar nova era nos testes de colisão

Se reclinares o banco do carro e apanhares um acidente, as probabilidades de te magoares a sério sobem logo. Isto já era verdade antes de alguém sonhar com carros autónomos. A diferença é que agora a indústria está a vender a ideia de viajar deitado, a ver séries ou a dormir, enquanto um robot conduz. E os reguladores estão enfiados num livro de regras que assume toda a gente sentada direita, cinto bem passado pela bacia, pés no chão.

O caso da Tesla Cybercab nos EUA é ilustrativo. O robotáxi não tem volante nem pedais, os bancos reclinam generosamente e os vídeos nas redes sociais tratam aquilo como sofá com rodas. Mas no próprio guia oficial a Tesla avisa que o encosto não deve passar dos 35 graus de inclinação e que o cinto tem de ficar bem justo na zona da bacia, pés assentes no chão. Traduzido: o sonho da cama sobre rodas choca com a física básica dos acidentes.

Investigadores de segurança rodoviária andam a dizer o mesmo há anos. Quando o corpo está reclinado ou de lado, o cinto deixa de trabalhar com o esqueleto e começa a apertar no “molho mole” da barriga. Em vez de travar o corpo na zona pélvica, concentra forças em órgãos internos e coluna lombar, o que se traduz em hemorragias internas, fraturas na bacia, lesões em pés e pernas, muitas vezes incapacitantes. O problema é que os dados oficiais quase não apanham estes casos, porque depois de um embate é difícil reconstruir exatamente como ia sentada cada pessoa.

Mesmo assim, nos registos de segurança dos EUA há pelo menos algumas dezenas de mortos catalogados como tendo o banco “não na posição vertical normal”. É quase de certeza subcontado, mas já chega para pôr o regulador a mexer-se. A autoridade de segurança rodoviária norte-americana começou a olhar para a posição reclinada como ponto de partida para novas normas específicas para veículos autónomos. Não é um detalhe de nicho. Os testes de colisão atuais usam bonecos com pelves rígidas que nem sequer conseguem esparramar-se no banco, e os airbags são pensados para corpos direitos e virados para a frente.

Empresas como a Zoox, da Amazon, já aparecem com robotáxis tipo torradeira sobre rodas, sem volante e com bancos frente a frente. Ou seja, layouts que as normas clássicas simplesmente não previam. Nestes casos, as marcas acabam em processos especiais de homologação, demorados, para provar que conseguem limitar lesões graves mesmo sem cumprir o guião tradicional. A ironia é óbvia: foi preciso chegar o carro que se conduz sozinho para os reguladores aceitarem reabrir regulamentos que já estavam desfasados até para carros normais. O mesmo reflexo defensivo que temos visto na forma como o automóvel está a tornar-se também um dispositivo de recolha de dados, como explorámos em como o teu carro te anda a vender.

Para quem olha disto a partir de Portugal, com robotáxis ainda em modo ficção científica, isto pode parecer distante. Não é. As normas de segurança europeias também partem do passageiro certinho, e a próxima vaga de veículos semi ou totalmente autónomos vai trazer bancos rotativos, ecrãs panorâmicos, modos “cama” e afins. Se quisermos colher os benefícios de automação na segurança rodoviária, o pacote tem de incluir testes de colisão repensados, bonecos novos e, sobretudo, coragem regulatória para admitir que os humanos raramente se sentam como no manual.

Fonte: Wired

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