Apple e Samsung alinharam o calendário: este verão trouxeram ao pulso duas máquinas seríssimas, o Apple Watch Ultra 4 e o Galaxy Watch Ultra 2. São relógios assumidamente de nicho, caros, pensados para quem passa mais tempo a medir coisas do corpo do que a olhar para o próprio corpo. A proximidade nas especificações é tal que a escolha real continua a ser outra: és pessoa Apple ou pessoa Samsung/Google?
Nos materiais há empate técnico: caixa em titânio nos dois. A Samsung joga com cinzento e prateado, a Apple com preto e um tom natural mais clássico, e depois abre a torneira do luxo com a parceria Hermès e braceletes em titânio. Durabilidade idem: ambos certificados EN13319 para mergulho, ambos com resistência até 100 metros. A Apple traz IP6X para poeiras, a Samsung sobe a fasquia com IP69K para poeiras e jatos de água de alta pressão. Na prática, nenhum deles tem medo de mar, piscina ou trilho a sério.
Por dentro a história separa‑se. O Galaxy Watch Ultra 2 vem com chip Snapdragon Wear Elite e integra o assistente Gemini, numa estratégia Samsung/Google muito focada em IA generativa no pulso. Traz 64 GB de armazenamento e 2 GB de memória. O Apple Watch Ultra 4 usa o novo S11, com a nova Siri e suporte para a tal Audio Intelligence que já levantou sobrancelhas por causa da privacidade ao permitir uma espécie de “replay” de conversas reais. Também oferece 64 GB de armazenamento. A diferença não é tanto de números, é de quanto confias em cada empresa a meter algoritmos a ouvir a tua vida.
Nos ecrãs, a Samsung joga o choque de números: 1,52 polegadas num círculo Super AMOLED, encaixado numa moldura quadrada arredondada com apenas 10,7 mm de espessura, e um pico teórico de 5.000 nits. A Apple mantém o retângulo de 49 x 44 mm, cerca de 1,9 x 1,7 polegadas, com 12 mm de espessura e OLED LTPO3 “Retina” a chegar aos 3.000 nits. Em Lisboa ao sol de agosto, esses 2.000 nits extra do Galaxy Watch Ultra 2 podem mesmo fazer diferença. Mas o retângulo da Apple continua a dar mais espaço útil para complicações e texto, algo que pesa para quem vive em notificações e métricas.
Na bateria, a Apple fala em até 50 horas, ou 84 em modo de baixo consumo, e 25 horas de treinos contínuos com GPS e frequência cardíaca graças ao Extended Workout Mode. A Samsung vangloria‑se dos 800 mAh de capacidade, um número impressionante mas que isolado significa pouco, e promete até 60 horas de uso. No carregamento rápido, as estratégias também divergem: a Samsung fala em ir aos 40% em meia hora, a Apple em ganhar até 18 horas de autonomia com 15 minutos de carga. Traduzindo para a vida real: nenhum destes relógios é um Garmin que esqueces no pulso durante uma semana, mas nenhum é o drama diário dos smartwatches de há cinco anos.
Onde a conversa aquece é na saúde. A Apple mexeu mais: novo sistema de sensores, leitura de frequência cardíaca a cada cinco segundos, pedómetro revisto para contar passos com mais rigor, e integração com a nova app de prontidão física que cruza sono, atividade e outros dados para dizer se o corpo está pronto para esticar a corda. A Samsung responde com o seu pacote de métricas, incluindo leituras como antioxidantes “muito baixos”, mas mantém a lógica habitual de dashboards bonitos a pedir disciplina de quem os usa. No fundo, são dois relógios cheios de dados para um público que já vive preso a rings e barras de progresso. A diferença maior continua a ser a muralha entre iOS e Android: o Ultra 4 fecha‑te ainda mais na bolha Apple, o Galaxy Watch Ultra 2 puxa para o lado Samsung/Google onde a marca não se cansa de provocar quem pondera sair do iPhone, como já vimos no marketing recente da Samsung. Tecnicamente ambos são excessivos para a maioria das pessoas. Mas é precisamente esse excesso que os torna o brinquedo preferido de quem vive obcecado com o próximo dado biométrico.
Fonte: Engadget
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