Apple bate recorde de iPhone mas sofre choque em bolsa
A Apple fechou o melhor trimestre de junho de sempre no iPhone, mas perdeu mais de 360 mil milhões de dólares em valor bolsista por causa de chips, memória e um futuro mais apertado.
A Apple fechou o melhor trimestre de junho de sempre no iPhone, mas perdeu mais de 360 mil milhões de dólares em valor bolsista por causa de chips, memória e um futuro mais apertado.
Recorde de receitas no iPhone, queda a pique nas ações. A Apple apresentou o melhor trimestre de junho de sempre para o iPhone e, ainda assim, a bolsa decidiu castigar: mais de 7% de queda em pré-abertura, o equivalente a cerca de 360 mil milhões de dólares apagados do valor da empresa em poucas horas.
Os números, em si, eram difíceis de criticar. A receita do iPhone chegou aos 54,25 mil milhões de dólares no trimestre, perto de 50 mil milhões de euros, um salto de quase 22% face ao ano passado e acima das previsões de Wall Street, que apontavam para 53,86 mil milhões de dólares. Para quem olha só para o passado recente, a máquina continua afinada. O problema, como quase sempre na bolsa, é o que vem a seguir.
Para o trimestre atual, a Apple falou em crescimento de receitas entre 9% e 11%, abaixo dos cerca de 12% que os analistas tinham no Excel, e apenas “crescimento de meados da casa das dezenas” no iPhone. Tim Cook insistiu que não é a procura que fraqueja, são as fábricas que não chegam: “restrições de oferta, não procura fraca”. É uma frase pouco habitual para uma empresa que passou a última década a preocupar-se mais com o apetite dos consumidores do que com a capacidade das linhas de montagem.
A raiz do problema é o boom da IA. A corrida global a chips avançados e memória para centros de dados está a estrangular a oferta e a empurrar custos para cima em toda a indústria. A Apple, que até se tinha preparado com inventário extra de memória, já acusa o toque: acesso limitado a capacidade de fabrico avançado está a travar o fornecimento de iPhone, Mac e iPad, os três pilares do hardware da marca. A memória é o gargalo mais doloroso, com preços a disparar à medida que os servidores de IA absorvem praticamente tudo o que sai das fábricas.
O efeito é visível muito para lá de Cupertino. O mesmo aperto na memória está a encarecer tudo, de boxes de streaming a portáteis, porque o telemóvel de gama média compete agora, em pé de desigualdade, com um servidor de IA de milhares de dólares pelos mesmos chips. A Apple anda tão pressionada que tem feito lobby em Washington para conseguir comprar memória à chinesa CXMT, que está em listas negras americanas, algo impensável há poucos anos e que mostra até onde a empresa está disposta a ir para manter as linhas a trabalhar.
Analistas descrevem o trimestre como um choque frontal: uma procura ainda robusta contra uma parede de constrangimentos de oferta e custos. Há uma alavanca óbvia, se a Apple decidir puxar por ela, a do preço. Vários bancos, como a TD Cowen, defendem que a marca pode subir o preço do iPhone sem matar a procura, sobretudo no topo de gama, o que não é propriamente música para os ouvidos de quem em Portugal olha para um futuro iPhone 18 Pro já com preço agressivo de base e depois vê a margem para mais aumentos.
Tudo isto acontece em plena transição de liderança. Tim Cook sai em setembro, John Ternus herda uma Apple com iPhone em máximos, uma estratégia de IA ainda a consolidar e um limite físico imposto pela capacidade de fabrico global. Para os investidores, a reação negativa encaixa numa tendência recente, em que resultados fortes de gigantes de chips como a TSMC também foram recebidos com quedas em bolsa. Para quem anda a escolher telemóvel e vive em euros, a moral é mais prosaica: a IA que prometia tornar tudo mais “inteligente” começa por tornar a eletrónica mais cara e menos previsível.
Fonte: The Next Web
Comentários · 0