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Alertas sísmicos do Google avisaram 11,4 milhões antes dos sismos na Venezuela

O sistema de alertas de terramotos do Android deu até dois minutos de avanço a milhões de pessoas num país sem rede oficial. Uma solução técnica… com dono e com condições.

Alertas sísmicos do Google avisaram 11,4 milhões antes dos sismos na Venezuela

Na quarta-feira, na Venezuela, não foi o Estado que falou primeiro, foi o Android. Antes de dois dos sismos mais fortes da história do país, cerca de 11,4 milhões de pessoas receberam um alerta de terramoto nos seus telemóveis. Em alguns casos, com até dois minutos de antecedência. Num país sem qualquer sistema nacional de aviso precoce, a primeira linha de defesa foi um serviço da Google.

O que aconteceu ali é o maior teste real ao sistema de Earthquake Alerts da empresa. A ideia é simples e tecnicamente elegante: usar o acelerómetro que já existe em quase todos os smartphones Android como sismómetro improvisado. O mesmo chip que roda o ecrã quando viras o telemóvel consegue sentir o tremor inicial de uma onda sísmica. A Google agrega sinais anónimos de mais de dois mil milhões de dispositivos, cruza localizações aproximadas, confirma que não é um camião a passar numa ponte e, quando tem confiança suficiente, dispara alertas para a zona potencialmente afetada.

Funciona porque um sismo não é um único abanão. Primeiro vêm as ondas primárias, mais rápidas e pouco destrutivas. Depois chegam as ondas secundárias, mais lentas e normalmente responsáveis pelos estragos. A diferença de velocidade cria uma pequena janela de oportunidade. Uma notificação digital via rede móvel ou dados chega quase à velocidade da luz. Se o sistema deteta as ondas primárias longe de ti, consegue avisar-te antes de as secundárias chegarem. Na Venezuela, segundo o engenheiro principal da Google, Marc Stogaitis, foram precisos três segundos para os primeiros telemóveis detetarem o sismo de magnitude 7,2, e mais seis segundos até o sistema começar a enviar avisos.

O problema é que a natureza não colabora com a UX. Poucos segundos depois, outro sismo de magnitude 7,5 atingiu o país, o mais forte desde 1900. As ondas sobrepuseram-se, o sistema da Google leu tudo como um único evento enorme e a realidade foi menos ordenada do que qualquer gráfico de apresentação técnica. Quem estava mais longe do epicentro ganhou tempo útil para se proteger. Quem estava demasiado perto sentiu o chão tremer antes de o toque estridente do “Take Action” conseguir fazer diferença.

A Google usa três níveis de alerta para magnitudes a partir de 4,5. Do aviso mais discreto até ao modo “larga tudo e protege-te”, com som agressivo e instruções no ecrã. Na Venezuela, quase 1,4 milhões de pessoas receberam este nível máximo. Em países ricos como Japão, México, Canadá ou Estados Unidos, redes densas de sensores físicos no solo alimentam sistemas nacionais que avisam tanto iPhone como Android por defeito. Nos países mais pobres, onde esses sensores não existem, o que se viu agora é um esboço de rede de segurança low-cost. A infraestrutura é o smartphone das pessoas e a nuvem da Google.

Para quem vive em Portugal, um país sísmico com memória curta de 1755, isto levanta duas questões. Primeiro, técnica: faz sentido depender de um serviço privado sediado nos EUA para algo tão crítico como alertas de sismo, em vez de termos uma rede pública europeia a usar tecnologia semelhante sobre dados controlados localmente. Segundo, política: quando o aviso que te pode salvar vem de uma notificação proprietária do Android, ganhas segundos, mas perdes um pouco mais de autonomia coletiva. O teste venezuelano mostra que a tecnologia funciona o suficiente para valer a pena. Falta decidir se a queremos como SOS público ou como mais um serviço “grátis” alugado à Google.

Fonte: The Next Web

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