Há projectos espaciais que cheiram a powerpoint para investidores. O Fermi Explorer não. Cheira a folha de cálculo, matemática teimosa e uma pergunta incómoda: se é “barato” mandar uma sonda a outra estrela, porque é que o céu está tão vazio?
Philip Johnston, matemático e físico britânico, ficou conhecido na indústria por defender centros de dados em órbita, via a sua empresa Starcloud, hoje avaliada em 2,3 mil milhões de dólares. No meio de levantar centenas de milhões para pôr servidores no espaço, decidiu que também quer despachar uma nave para Alfa Centauro, o sistema estelar mais próximo do Sol. Orçamento-alvo: 15 milhões de dólares, qualquer coisa como ~13,5 milhões de euros. Payload: 1 kg. Objectivo: chegar lá em menos de 80 mil anos.
O plano é quase ofensivamente simples. Nada de velas laser estilo Breakthrough Starshot, nada de nova física. Um depósito grande de gás Xenon, painéis solares, propulsão eléctrica solar e uns quantos instrumentos científicos. O problema óbvio: longe do Sol, a energia cai a pique e um conjunto destes não acelera o suficiente. Depois de falarem com meio mundo, incluindo especialistas de trajectórias do Jet Propulsion Laboratory da NASA, a solução chegou pela via da IA.
Johnston juntou-se a Alex Wissner-Gross, fundador da Physical Superintelligence, uma empresa de tecnologia de IA. Meteram os parâmetros da missão num modelo e receberam de volta um relatório técnico de 81 páginas com um perfil de voo pouco ortodoxo. O Fermi Explorer seria lançado em partilha de viagem para órbita baixa da Terra, passaria mais de uma década a “brincar” com órbitas retrógradas para aproximar o periélio até cerca de 0,42 unidades astronómicas e, em cada passagem rente ao Sol, aproveitaria o fluxo solar mais intenso e o efeito Oberth para dar pequenos “pontapés” de velocidade. Ao fim de cerca de 12 anos, sairia do Sistema Solar a ~25 km/s, ou cerca de 55.000 km/h, rumo balístico a Alfa Centauro, chegada estimada em 77 mil anos.
Na prática, a equipa só teria contacto significativo com a sonda durante uns 18 meses. Com retrorreflectores a bordo, telescópios no solo conseguiriam segui-la até perto de Júpiter. Depois disso, adeus para sempre. O que sobreviver em 3026, 12026 ou 77026 que se entenda com ela. É este desfasamento absoluto entre o horizonte humano e o cronograma da missão que dá ao projecto um ar de manifesto filosófico, mais do que de programa científico clássico. Ao contrário de megaprojectos como os da SpaceX para infra-estrutura orbital pesada, aqui o gesto é quase minimalista: provar que uma civilização tecnológica consegue, de facto, atirar um artefacto para outra estrela com meios modestos.
É aqui que entra o paradoxo de Fermi. Se uma startup com orçamento de série B consegue conceber uma missão interestelar “mínima”, porque é que não vemos o céu cheio de artefactos equivalentes de outras civilizações? Johnston quer riscar dois filtros da lista: a ideia de que espécies não têm motivação para enviar naves para lá da sua estrela, e a hipótese de que o trânsito interestelar é tecnicamente impossível ou demasiado caro. Se um pequeno consórcio privado moderno, num planeta com crises ao molho, consegue fazê-lo, então ou as civilizações são raríssimas, ou algo faz repetidamente reset àquelas que chegam a este patamar. A missão em si pode ser barata. A implicação não é.
Para já, o Fermi Explorer ainda é proposta e tentativa de angariação de fundos, com ambição de lançamento até 2029. Mesmo que nunca saia do ecrã dos simuladores, expõe uma fragilidade desconfortável no nosso argumento favorito para a solidão cósmica: talvez o silêncio à nossa volta não seja porque é impossível chegar às estrelas. Talvez quase ninguém chegue a tempo de tentar.
Fonte: Ars Technica
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